Quis tanto você, que esqueci de enxergar

“Então ele me via.
Me via mesmo por trás do pijama de unicórnio. “

1d62447d3422d8bf0dde75526d9eb59c

Eu quis você, sempre quis.
Lutei sozinha por algo mais que sua amizade.
Mas você não conseguia me enxergar.
Pelo menos não como eu te enxergava.

Lembra quando saíamos juntos, íamos para bares e você me pedia para apresentar alguma amiga?
Eu via você ir embora cedo demais, às 2 A.M., dando aquela piscadela e sorrindo com um troféu nos braços.
E eu sabia o que aconteceria, era bem óbvio.

Vocês iriam para o seu apartamento, você pediria comida japonesa pelo iFood e abriria um vinho tinto. Mas quer saber a minha opinião? Você nunca foi o tipo de cara que precisaria embebedar uma garota para ter o que queria. Elas simplesmente se atiravam aos seus pés, como eu cansei de ouvi-las falando e rasgando elogios no refeitório da faculdade. O problema é que eu não poderia concordar mais.

Você é lindo, charmoso, tem um sorriso de arrastar multidões. Não o tipo de sorriso cafajeste, mas o tipo covinhas, que faz qualquer garota querer te levar pra casa e ri das suas piadas sem graça. E mesmo se não fosse tão lindo, a sua simpatia pelas pessoas, a atenção que você dá a elas, isso tudo encanta. Ou o jeito como você se preocupa com alguém que conheceu há cinco minutos e a fé que você tem nas pessoas, no mundo.

Sempre ouvi você dizer que eu era sua melhor amiga. Vivia me abraçando e me apresentando como uma amiga. Aaah… se você soubesse que eu odiava esse título, jamais falaria isso, nem mesmo para sua família, naqueles almoços maravilhosos de domingo em que você carregava um troféu estereotipado ao seu lado. Eu amava passar os domingos com vocês, mesmo. Mas éramos nós, era nosso dia especial, aquele que íamos para o seu quarto e deitávamos um ao lado do outro em sua cama, com o ar condicionado no mínimo possível, falando de tudo e de nada. Mas você estragou tudo quando começou a levá-las e, algumas vezes, eu nem conseguia ficar para a sobremesa. Até que um dia simplesmente não apareci.

Lá estava você, em um domingo a noite, na soleira da porta do meu quarto. Lá estava eu, deitada de pijama e olhando para o teto, depois de ter ignorado todas as suas ligações e não ter respondido nenhuma das suas mensagens sobre a nossa tradição ter sido quebrada. Primeiro você brincou sobre isso, depois de um tempo ficou preocupado e, por fim, me amaldiçoou. Mas mesmo assim, lá estava você, querendo saber sobre mim.

– Não tenho certeza do que vim fazer aqui. – você disse, com os braços cruzados e olhando para o chão.

– Sinto muito ter quebrado a nossa tradição, mas não acho que posso fazer mais isso. – eu disse me levantando.

– Eu não entendo. Por que? O que mudou? – ele finalmente me encarou.

– Nada. – saí andando em sua direção, com meu pijama de unicórnio. – Esse é o problema. Nada mudou, quando o que eu mais queria era que tudo mudasse.

– Talvez se você me falasse, eu poderia fazer algo. – estávamos frente a frente agora.

– Okay, talvez você esteja certo. Mas eu vou tornar as coisas mais fáceis ainda pra você. Não quero mais que você grite pro mundo que eu sou sua melhor amiga, como se eu fosse sua irmãzinha. Também cansei dos bares e de você todo falastrão “me apresenta sua amiga?”. Isso acabou. Não conte mais comigo para conseguir seus troféus. E se levar alguém nos almoços de domingo, faça a gentiliza de me avisar, porque nem me dou ao trabalho de comparecer. – disse tudo sem desgrudar meus olhos dos dele.

– O que você quer dizer com tudo isso? – a sua voz estava baixa e ele deu dois passos em direção a mim. Precisei puxar o ar, para não me distrair com aquele perfume e aquele olhar que me derretia.

– Você parece ser tão esperto, mas a verdade é que você é um idiota!!! Não consegue perceber que eu odeio e tenho ciúmes disso tudo? Que não quero ser sua amiga e quero que você me olhe como a mulher que eu sou? – a minha voz soava incrivelmente controlada e baixa.

– Eu sou um idiota, só não ganho de você! – fiquei confusa e ofendida. – Todas aquelas amigas? Na maioria das vezes nem acontecia nada. Era só para elas falarem de mim pra você. As garotas de domingo? Talvez despertasse em você a vontade de ficar ao meu lado como elas. Te chamar de melhor amiga? Era eu torcendo para que você despertasse seu lado mulher e lutasse por mim, se me quisesse como eu te quero. – agora ele sorria tímido, e esse sorriso eu não conhecia.

– O que? Você… – coloquei a mão na boca e não consegui concluir a frase.

– Sou apaixonado por você! – ele se aproximou e me beijou.

Então ele me via.
Me via mesmo por trás do pijama de unicórnio.
Me via desde a primeira vez, mas era eu quem não enxergava.
Eu quis tanto você, mas não conseguia enxergar, até você conseguir me mostrar.

Comments

comments

Previous Post Next Post

You Might Also Like

No Comments