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Maldita bolsa

“Comprei uma bolsa de grife, mas ouçam que cara de pau. Ela disse que ia me dar amor, acreditei que horror. Ela disse que ia me curar a gripe, desconfiei mas comprei. Comprei a bolsa cara pra me curar do mal.”

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A chuva insistia em cair, o clima úmido insistia em deixar meu cabelo bagunçado, minha bolsa mais bagunçada que meu cabelo. Meu cabelo mais bagunçado que a minha vida.

Por que eu insisto em usar essas bolsas gigantes?

Este clima estranho de novembro, meus lábios ressecados, por falta de beijo ou de hidratação, mas tudo iria se resolver quando eu achasse o hidratante na maldita bolsa.

Por que eu insisto em usar essas malditas bolsas gigantes?

Não acho a chave do carro, não acho hidratante, não acho o cartão, mas acabei de achar umas balinhas de menta…
E a dieta menina?
Acabei deixando o hidratante pra lá, tentei ler as calorias das balas, a embalagem indica para eu ligar para o SAC, deduzo que não deve ser um bom sinal. Sigo com as balas, calculando quantos agachamentos eu devo fazer quando chegar em casa. Não vai ter agachamento e se reclamar passo na padaria nova e compro uma bomba de chocolate, vai ser uma bomba de calorias.

Essa fila não anda?
Três caixas, três moças trabalhando, duas. A terceira está ocupada lixando a unha.
Eu deveria marcar manicure, poderia pintar a unha de vermelho, aquela sensação de poder feminino, o qual as unhas vermelhas são capazes. Eu deveria fazer isso, ou fazer uma francesinha… Os homens gostam de francesinha né? Que se fodam os homens. Eu gosto de unha vermelha, eu vou pintar de vermelho. Vou chegar na manicure e dizer: “PINTA ESSA PORRA DE VERMELHO”. Depois que eu achar meu celular na bolsa, eu vou marcar um horário na manicure!

Por intervenção divina, caso algum dia eu consiga sair desta fila, irei comprar uma pequena bolsa, um piercing de celular em forma de hidratante labial e uma capa para celular em neon, para achar ele de forma prática.

-Senhora é pagamento em dinheiro?

É sério que alguém usa dinheiro ainda? Quem acharia dinheiro dentro dessas malditas bolsas, quem tem tempo para ir ao banco sacar dinheiro? Achar lugar para estacionar, achar o hidratante labial, achar o cartão, ficar presa na porta do banco por causa de algum maldito metal dentro da maldita bolsa, derrubar o absorvente na frente de todas as pessoas do banco, tirar dinheiro, procurar a chave do carro, chorar e se jogar no chão pedindo pela mãe.

-Não moça cartão!

Bom dia, três livros. Um sobre finanças, outro que meu terapeuta indicou, um sobre a nova dieta do mediterrâneo. É óbvio que não vou fazer, mas a capa era bonita.
Eu queria sair dali correndo, passar na farmácia comprar um novo hidratante labial e um shampoo a seco. Opto por caminhar e procurar a chave do carro, ao mesmo tempo.

Eu não acredito que entre um milhão de pessoas, um milhão de momentos eu vou encontrar ele no meu estacionamento corriqueiro.
O estacionamento era meu, acredito que ficou subentendido no término: estacionamento, restaurante da Brasil, qualquer confeitaria da cidade. Ambientes MEUS. Fizemos um tratado, ou pelo menos eu imaginei que tínhamos feito. Ficou nas entrelinhas.

Filho da puta! Está ainda mais gostoso. É sério que ele deixou a barba crescer? MEU DEUS MEU DEUS MEU DEUS! Ele tá vindo, devo fingir costume, procurar alguma coisa nessa bolsa. Será que sorrio e aceno? Pergunto como está a família? O porteiro do prédio? O problema da companhia telefônica foi resolvido? Posso me jogar na frente dele e agarrar as suas pernas, implorando para voltarmos? Rapaz minha dermatologista falou sobre o aspecto estranho da minha pele, sugeriu sexo 3 vezes na semana, você pode me ajudar?

Ele passa por mim e sorri, eu sorrio e aceno.

Ps.: Lembrar de comprar uma bolsa maior para me enfiar dentro dela.

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