Pensamentos

Nunca tive controle para poder dizer que o perdi

” Queria ser alguma espécie de heroína que sonhava em salvar o mundo. Só não esperava que a realidade fosse tão cruel. “

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Todos nós temos algum medo.
Eu tenho muitos, alguns bem medonhos.
Entretanto, existe um que talvez seja não só o meu maior medo, como também, sempre tenho a sensação dele ser real, me deixando mais amedrontada a cada dia.

No livro “Medo Líquido” de Zygmunt Bauman, tem um trecho em que ele diz: “Esses medos são ainda mais aterradores por serem tão difíceis de compreender; porém mais aterradores ainda pelo sentimento de impotência que provocam.” E é dentro de sentimento de impotência, que me vem o aterrorizante medo de perder o controle do meu próprio corpo. Mesmo tendo plena consciência que o perdi diversas vezes.

Sempre fui uma pessoa “controladora”, em relação a tudo na minha vida.
Nunca cogitei, em nenhum momento, que eu pudesse “perder o controle” de algo. Era a sensação de que eu sabia exatamente como me proteger e assim também poderia proteger quem estivesse ao meu lado. Tudo ilusão. Queria ser alguma espécie de heroína que sonhava em salvar o mundo. Só não esperava que a realidade fosse tão cruel.

Nos meus 17 anos de idade, presenciei um dos piores momentos da minha vida.
Por um quadro grave de pneumonia, meu irmão precisou ficar internado por 22 dias em um hospital, sendo 10 deles dentro de uma UTI. Revezava sempre com minha mãe para poder acompanhá-lo. Em um desses dias, estava como acompanhante dele e quando o vi precisar de uma máscara de oxigênio, meu mundo desmoronou. Me senti uma pessoa vulnerável, pequena, impotente, que não podia fazer nada. Naquele momento não havia ninguém que pudesse me segurar. Precisei resistir. Meu irmão é a pessoa mais forte que conheço, ele superou mais essa batalha como um verdadeiro herói. E eu entendi ali que nem tudo poderíamos controlar, ou melhor, quase nada tem nosso controle.

Passaram-se os anos e em cada situação e momento que vinha acontecendo, sentia que o “controle” era cada dia mais irreal. Na verdade, só havia a impressão de um falso domínio sobre as coisas, Mas o medo real era ter que aprender a lidar com a falta dele.

Talvez eu tenha sido uma pessoa distraída no passado, hoje eu observo tudo que acontece no meu dia a dia com muito mais atenção. Inclusive, aprendi a me observar também.

O descontrole se faz presente nos detalhes do cotidiano. O tempo passa a cada tic tac no relógio da cozinha e você nem percebe. Você olha para o lado e vê que a cada ano que passa, sua mãe fica com o cabelo mais branco e as rugas mais evidentes. Quando você tem que dar tchau para seus irmãos porque eles estão saindo de casa e você fica mais uma vez. Quando você se apaixona, como nunca antes, por uma pessoa que está há mais de dois mil quilômetros longe de ti. Quando você não quer, mas se apega fácil. Quando seus relacionamentos nunca deram certo. Quando você criou expectativas no seus empregos e no fim nunca fizeram sentido para você.

E quando você percebe que não tem controle nem de si mesmo.
Você traçou um planejamento para o seu futuro durante um ano inteiro, se dedicou, criou novas expectativas e mais uma vez vê tudo escorrendo pelas próprias mãos.

Entrei naquela sala para realizar a prova com todas as pressões de uma vida. Tinha emoções, sentimentos, desejos, obrigações e responsabilidades. Tinha muitos sonhos juntos. Foi mais pesado do que eu poderia aguentar. Perdi, mais um vez, para meu maior concorrente, concorrente esse que já vinha me atormentando durante o ano, meu psicológico. Foi como um curto circuito, quando me dei conta já não tinha muito o que fazer, estava entregue a minha própria confusão. É desesperador.

Não conseguia pensar mais na prova, meu foco era ficar calma, precisava de ajuda. Depois de pouco mais de uma hora me acalmei, já era tarde. Eu tinha desistido ali. O inconformismo me corroía durante o passar dos dias. Mas logo entendi que naquele momento não estava tão preparada como pensei. E mais uma vez não tive controle. Foi frustrante, mas era a única saída e talvez tenha sido a melhor decisão.

Perder o controle era mais fácil do que eu sempre imaginei. Aliás, acredito que nunca o tive para perdê-lo. Tudo não passou de uma doce e consequentemente amarga ilusão.

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