Contos e Crônicas

PRIMEIRO SINAL DE LOUCURA

“Sinto absoluto o dom de existir,  não há solidão, nem pena nessa doação, milagres do amor. Sinto uma extensão divina.”

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Estava sozinha. Por assim achar mais cômodo, sem paciência para flertes baratos. Eu gosto de olhares profundos, por questões de segundos, canso das pessoas e da necessidade de ser simpática. Sou extremamente agressiva, geralmente quando passo por privações de carboidratos, ou tenho o limite do cartão suspenso. Não pense que sou dessas que desconta faltas em compras ou comida, embora em um passado não tão longínquo, ter a tensão aliviada por um par de sapatos novos; acalmava meu coração, pelo menos até a fatura chegar.

Era sábado à noite, madrugada de um. Poucos carros passavam pela minha rua, e a lista de pessoas online era escassa. Eu recebi três convites para ver a cidade, frequentar o mesmo bar usual ou servir de marmita para passar o tempo. Nada me apetecia mais do que iniciar uma série nova, e escutar os velhos discos.

Eu escolhi uma música pouco dançante, mas mesmo assim a vontade de dançar invadiu meu corpo. Eu estava comendo 100 g de brócolis sem sal, vestindo uma camisola que já foi a minha favorita, hoje é só mais uma coisinha velha e confortável que eu uso para ficar em casa, calçando a pantufa mais estranha da história da humanidade, e a vontade de dançar em frente ao espelho, com os brócolis e um creme que previne o envelhecimento precoce foi mais forte que eu.

Assim eu fiz, dançando sem jeito, com um sorriso estampado e escrachado no rosto. Pode ter sido o primeiro sinal de loucura, ou apenas o primeiro sinal que sou Liberta dessa necessidade de sair aos sábados, ou ter uma companhia. Eu aprendi a amar minha solidão, aprendi a apreciar minha companhia e respeitar meus defeitos. Sou ciente que sou uma pessoa difícil de lidar, meus amigos são seletos. Aprenderam a lidar com as minhas crises existenciais, ansiedade ou de pânico.

Não há alegria maior do que aceitar quem se é. Suas próprias vontades, não há no mundo paz maior do que quando se está bem consigo mesma, proporcionando pequenos prazeres. Eu poderia ter saído para comprar uma barra de chocolate, jogar os brócolis pela janela, há boatos que alguns compostos do chocolate se assemelham ao THC, não tenho conhecimento científico ou empírico sobre tal afirmação, aceitem como licença poética. Mas eu já estava feliz, não precisava de mais nada. Ficarei atenda aos próximos sinais, houve épocas que assistia o programa do Jô e interagia com ele, comentando suas piadas, fazendo duras críticas quando algo me ofendia, e elogiando ele como um velho amigo. Esta loucura parou antes de ele começar a me responder. Prestarei atenção aos próximos sinais, mas eu confio que seja apenas a felicidade por estar bem, sem a necessidade de encontrar alguém.

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