Superação

Escrevo para me libertar de você

“Quando foi que passamos a ser um erro?
Quando foi que a melhor solução foi jogar nossos planos fora?”

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Escrevo para você que se foi. Você que adubou minha terra com esperança mas plantou em mim dúvidas. Escrevo para você que foi indigno por não me dizer a verdade, a razão do nosso fim, algo que eu merecia por direito. Escrevo para você que, apesar de tudo, ainda me causa recaídas de vez em quando. Escrevo para você que até o hoje foi o meu maior motivo de coragem para enfrentar o mundo e fazer com que todos aceitassem a nossa relação. Relação essa que nós idealizamos, e colocamos em palavras, em belas palavras, mas que, infelizmente, ficou só nisso e não se concretizou. Escrevo para você que dizia ter a intenção de me fazer feliz mas que foi embora da nossa história sem ao menos dizer adeus. Escrevo para você, alguém que eu já devia ter superado.

Mas como superar algo em que não se tem um fim certeiro, em que não houve despedidas, nem brigas, nem qualquer coisa que pudesse justificar esse cinza que restou de nós. Quando foi que nós perdemos a cor? E por que foi que eu não reparei nisso? Logo eu que queria ser a sereia das suas águas mais profundas, que queria mergulhar em ti por inteiro, hoje nado em águas de dúvidas. Como você pôde me ensinar a nadar e não ser o meu oceano? Como você pôde ser minha calmaria e de repente, sem nenhum aviso prévio, me jogar num furacão? O que é que eu posso levar de nós se eu nem sei ao certo o que nós tínhamos? Por que você decidiu jogar sem ao menos me explicar as regras do jogo?

Eu odeio pontas soltas e apesar de ser isso o que mais existe em nós, eu não odeio a nossa história. Jamais odiaria. Confesso que por tempos fiquei esperando um sinal de vida teu, fiquei tentando encontrar onde foi que eu tinha errado, sendo que na realidade eu nunca fui o erro. Eu achava que era responsável pela sua partida, mas havia me esquecido que você era dono dos seus próprios passos. Criei incontáveis teorias para achar uma resposta, um motivo, e demorei a perceber que a verdade é que você é raso demais para mim. Quando foi que passamos a ser um erro? Quando foi que a melhor solução foi jogar nossos planos fora? Quando foi que você decidiu que me encher de dúvidas era melhor do que me dar uma resposta concreta? E por que foi que você decidiu isso?

Salvei um áudio teu na tentativa de que ouvir tua voz pudesse te fazer presente, mas descobri que nossa história é digna apenas de permanecer no passado, que não faz sentido trazer tudo a tona se eu ainda continuarei sem respostas. Todos os dias eu acordava com um vazio esmagante no peito e então logo percebia que o motivo era não ter nenhuma mensagem sua. Eu sei disso, porque o teu “bom dia” realmente deixava o meu dia bom. E quando passei a não recebe-los mais, pude entender o quão os meus dias eram preenchidos com tua presença.

Mas espera aí, por que é que eu não podia preencher meus dias sozinha? Quem foi que decretou que eu precisava de você para que tudo ficasse bem? Não vou negar que tua ausência me desestruturou no início, que doeu. Não vou negar que havia uma batalha cravada dentro de mim entre te procurar ou te esquecer. Mas então eu enxerguei que a resposta não estava aqui nem ali, a resposta estava em te superar.

Sei que isso não me devolve minha independência emocional assim tão fácil e que não acontece da noite pro dia. Mas criar consciência disso e começar a querer sair do fundo do poço, são os primeiros passos e depois que eles são dados, o caminho fica menor cada vez mais. Estou sempre a um passo mais perto de recuperar minha liberdade sentimental e o domínio completo de meus pensamentos. E isso é sensacional.

Não te levarei como um peso, como um fardo e nem sairei gritando seus erros, defeitos e imperfeições aos quatro cantos do mundo. Te carregarei como algo leve que apesar de tudo me ajudou a ganhar alguma sabedoria. Guardo nossa história comigo, espero que também a guarde com você. Não a exibirei publicamente (mesmo que as vezes eu fique tentada a fazer isso), pois isso não tem nada a ver com ninguém. Não escancararei a todos que você não me causa nada, pretendo te superar no silêncio do meu interior. Não me proibirei de sentir saudade, pois isso mostra que apesar de tudo, foi bom enquanto durou. Não me atormentarei buscando rótulos ou respostas para nós, aceitarei como o destino o escreveu.

Comecei dizendo que eu escrevia esse texto para você, mas no fundo escrevo para mim mesma, para que esse sentimento se esvaia de mim e se eternize num papel, onde ele pode ser mais poético, bonito e duradouro. Escrevo para me libertar de uma história sem pé nem cabeça, porque eu sou completa, inteira, e não mereço nada menos do que alguém ou algo que seja o mesmo.

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1 Comment

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    Renata
    16 de janeiro de 2017 at 14:31

    Que texto incrível! Muito do que tenho sentido nas suas palavras…

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