Somos o nosso lar

“Não tivemos coragem até agora de abrir nossos lábios e dizer o princípio disso tudo.
E não será agora que chegaremos ao fim.”

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A sua xícara de café está vazia.
Como o local onde estamos.

O silêncio é o único que fala.
Ele é o único que ainda permanece vivo.
Nesse lugar vazio.
Restando só nós.
À sós.

Minha xícara de café está vazia.
Mas os meus olhos estão tão cheios,
Que seriam capazes de enche-la novamente,
Só que de lágrimas.

Evitamos.
Remarcamos.
– Vamos deixar para outra hora.
– Tudo bem, outro dia.
Dias passaram.
– Vamos marcar para semana que vem.
E isso, que para mim, foi em poucos dias.
Tornaram-se meses.

Estávamos evitando que algo que sabíamos que iria acontecer,
Acontecesse.

Não tivemos coragem até agora de abrir nossos lábios e dizer o princípio disso tudo.
E não será agora que chegaremos ao fim.

Mas deveríamos.
Precisamos.

Sua xícara está vazia.
Você olha em meus olhos.
Estão cheios.
Cheios da mesma forma que os meus estão.

Não entendo como tudo isso foi acontecer.
Mas agora nós dois não resistimos.
Não queremos acreditar que talvez tenhamos um fim.
Mas só de olharmos um pro outro
Destrói tudo.
Um furacão passa por meu estômago,
Me deixando tonta
E com uma sensação ruim.

Você abaixa a cabeça e aperta os lábios.
Eu sempre odiei te ver assim.

Eu fecho os olhos com a maior força que consigo.
– Que isso seja um pesadelo. Por favor.
Peço em silêncio várias vezes.

Mas nessa de tentar evitar,
Lágrimas caem.
Muitas caem.
Um rio de sonhos
E sentimentos nadam sobre o rio que está escorrendo sobre meu rosto.

Queria não estar aqui na sua frente.

Você repara que tem algo errado.
Olha para mim.
Eu abro os meus, tudo se embaça.
Seus olhos mostram dor.
Uma dor que dói em mim.

Você levanta uma das mãos.
E seus dedos percorrem as superfícies dos meus olhos.
Faz muito tempo que não te sinto.
Uma presença.

Talvez não exista mais chances.
Eu começo a chorar ainda mais.
Mais e mais.
E você já não está mais com as mãos em mim.
Fecho os olhos novamente para evitar ver você indo embora
E desistindo de tudo.

Mas no mesmo segundo sinto seus braços em volta de mim.
Você me puxa para si.
Sinto que a sua única certeza é essa agora.

Não me contenho
E te abraço.
Como eu senti falta de estar entrelaçada em seus braços.

Ainda estou de olhos fechados.
Você me aperta ainda mais para si.

Talvez ainda não estejamos prontos para dar o fim
Em algo tão vivo que vive em nós.

Só precisamos saber como concertar isso
E encher sua xícara.
Ela não pode ficar vazia.
Porque não estamos vazios
Você tem a mim
E eu tenho você.

Somos a xícara e o café.
Precisamos nos completar.
E sei que podemos fazer isso.

Sinto suas lágrimas em mim
E finalmente olho para você.
Agora é você que está com os olhos fechados.

Coloco as mãos em seu rosto
E você os abre.

– Vamos embora, tem café em casa.

Você olha para mim.
E eu sei,
Eu sei que não vamos acabar com algo que mesmo com o desgaste,
Nos faz viver.

– Vamos para casa.
Sua voz é firme.

Você enxuga o meu rosto,
Pega na minha mão
E saímos assim.
Deixando a xícara,
As lágrimas,
E o local vazio.
E voltamos para onde nunca deveríamos ter saído.

Nosso lar:
Eu e você.

Leia mais em: Mundo Irreal

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