Ração sachê

“If you really love me, you would let me go…”

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Removedor de esmalte, ração sachê de frango para o gato, condicionador e pizza congelada. Eu só precisava vencer a luta diária com os lençóis, tomar uma ducha rápida, descer sete andares, sair da garagem sem arranhar o carro em nenhum pilar e ir ao supermercado mais próximo. Fazia três dias que o condicionador tinha acabado e eu estava me virando bem só com shampoo, a unha descascada vermelha passava uma imagem de desleixo, mas combinava com meu cabelo poroso. Eu me alimentava a base de delivery, mas meu gato não entendia minhas limitações e desde que a ração favorita dele acabou, ele me ignorava, rejeitando meus carinhos. Eu não suportava ser ignorada por outro ser que eu amava.

Eu tive vontade de sair de casa com a camiseta furada e meu roupão quentinho, mas estava com medo de ser confundida com uma louca. Não que eu não quisesse alguns dias internada, ou que estava apta para me achar em uma condição mental melhor do que aqueles que foram diagnosticados com algum quadro psicológico. Entendam não quis parecer presunçosa, apenas julguei necessário escolher uma roupa, e por assim dizer pegar do chão e cheirar cada peça, escolher as com menos manchas ou menos amarrotada. Eu definitivamente precisava de amaciante também.

Eu só precisava ser rápida, não ser tentada pelas promoções, ou pelos frascos de condicionador coloridos lendo suas especificações, eu não passaria horas escolhendo frutas orgânicas. Pelos próximos dias minha alimentação seria suprida pelas pizzas congeladas, porquê a espera pelo delivery me matava. Vislumbrava a espera por uma ligação, ou uma mensagem pedindo desculpas, uma afirmação; ele finalmente notará que a vida não é fácil, mas vale a pena quando eu estou por perto, ou que meu cabelo é sedoso, e ele em um gesto desesperado, alega sentir saudades. Saudade de acordar com meu cabelo afagando o rosto dele. Quando eu tenho condicionador, meu cabelo é algo que me causa orgulho.

Faz algum tempo que tenho evitado tomar decisões, desde escolha de roupas, lista de compras, ou essa decisão de me afastar dele, aliás, não fui comunicada sobre isto, apenas fui sendo ignorada, com mensagens vazias. Vez ou outra ele aparece, me dando a atenção mínima necessária para me manter interessada, como se precisasse de algo além de todos os traços dele, ou lembranças, pois, eu insisto em reviver nossos dias bons, embora tenha esquecido como foi nosso ultimo beijo. A gente nunca acha que vai fazer algo pela última vez.

Peguei o primeiro condicionador, seis pizzas congeladas que estavam organizadas impecavelmente, provavelmente por algum funcionário virginiano, ou com algum tipo de TOC não descoberto ainda. Prossegui sem prestar atenção aos sabores, o amaciante foi escolhido com base em seu preço; o mais barato neste caso era o que mais me apetecia. A única coisa que prestei atenção foi ao sachê, mas não era uma escolha minha. Apenas fiz o mínimo que cabia a mim para deixar o gato feliz e voltar a ronronar no meu colo. De volta ao apartamento notei que esqueci o removedor de esmalte, mas quem se importa, sou uma pessoa muito ocupada, para ter tempo de tirar o esmalte. Mais uma vez tive que me lembrar de que o julgamento dos outros, não é algo que diz respeito a mim.

O gato voltou a me amar, felino interesseiro. Celular gritava quase desesperado mostrando o nome dele, do gato humano que vez ou outra joga um pouco de atenção, como se comprasse minha ração sachê favorita. Seu nome em letras garrafais, mania irritante de anotar o nome de pessoas importantes com uma grafia diferenciada. Era uma piada infame sobre a minha nova foto. Eu definitivamente não preciso da aprovação dele em minhas fotos, e aqui entre nós; ele deveria liberta-me desta atenção mínima. Eu não consigo me afastar dele sozinha ou escolher frutas, e tem sido difícil sair da cama nas últimas semanas. Ele poderia e deveria ser honesto e não me manter por perto por puro ego. Eu sou uma mulher legal, acredito que ele saiba disto, ele precisa ter a decência de me deixar em paz, focar seu ego em uma dessas mocinhas que encontra por aí. Desejo que ele esteja atento aos interesses e que eles sejam semelhantes. Não há nada de errado em encontros casuais, ou relacionamentos à base do ego. Apenas verifiquem que o outro esteja no mesmo andar.

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