Comprar felicidade

“Você flutua no mar, o sal lavando suas mesquinharias, percebendo sua medíocre e ao mesmo tempo maravilhosa existência.”

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É engraçado como ter água até o pescoço, no final de tarde, flutuando sobre as ondas do mar, te faz pensar na vida. Você ignora os aspectos mais fúteis e bestas da sua existência. Os bens materiais que você tem não importam muito, você é só uma coisa flutuando na água, não muito diferente ou melhor que tudo ao seu redor. É nesse momento, desarmado, que surge sorrateiramente aquele sentimento solidão. Era isso que eu sentia? Falta de alguém? Ou talvez é só a vontade de beber alguma coisa. Sim, talvez a bebida fosse uma opção melhor.
Mulher é o melhor remédio para alguns males do mundo masculino, álcool é o medicamente genérico. Os efeitos colaterais são um pouco diferentes, podem incluir a ressaca, o alcoolismo e aumento de peso, mas funciona tão bem quanto para algumas dores.

O problema é que, apesar de te querer bem, a garrafa de vodka ou a cerveja importada, não te manda mensagens de carinho, que fazem com que a sua miserável existência faça sentido no outro dia. Mas não seria uma má ideia as cervejarias bolarem um App para isso. Não, não é a mesma coisa.

Esse é um problema dos tempos modernos, o mundo tenta te vender a todo custo experiências, sentimentos e sensações enlatadas. Você lembra da última vez que comprou um eletrodoméstico? Vamos usar como exemplo uma máquina de lavar. Já parou para pensar que eles querem que você acredite que uma máquina de lavar vai te deixar feliz? Meu caro senhor, maquiavélico comandante da grande rede de varejo on-line, eu só quero que ela lave a roupa. Deveria ser o seu maior propósito, e durar bastante tempo fazendo isso. Mas não é bem isso. A chegada do equipamento vai ser um evento, a caixa vai abrir com uma musiquinha animada quando chegar na sua casa e você vai ser o feliz dono da nova máquina de lavar dos sonhos. Há! Como você é único e invejado. O passo seguinte é a vontade louca de lavar toda roupa que existir em um raio de 10km, você quase bate na porta do vizinho para pegar roupa emprestada. Como você é feliz com esse novo equipamento! Droga nenhuma. Dura uma semana esse sentimento, o mesmo se aplica a quase tudo que você pode comprar. Então, depois de um tempo, você precisa comprar coisas novas.

De fato, dez anos mais tarde, você vai lembrar é do dia que bebeu cerveja barata, sentado na calçada, de chinelo, com os amigos. Sabe como é, não é? É preciso exercitar aquele chute na própria bunda que te expulsa para fora de casa as vezes. Vá viver. É preciso ter mais daqueles momentos em que o celular e a internet não fazem falta nenhuma. Achar mais pessoas para abraçar, mais rostos capazes de sorrir, mais bocas capazes de duetos de risadas. O que você está vestindo nunca importou de verdade nessas horas.

Você flutua no mar, o sal lavando suas mesquinharias, percebendo sua medíocre e ao mesmo tempo maravilhosa existência.

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