Trânsito Caótico

“Viver é bom nas curvas da estrada. Solidão, que nada…”

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Sem cinto, sem carteira, sem maquiagem alguma. Sem coragem de seguir em frente. Toda angústia acumulada durante semanas, não conseguiram aguentar o trânsito, três palavras maldosas de um cara apressado foram o suficiente para ela desabar. Tentativa malogra de ser valente, dissolveu-se em lágrimas, salgadas, amargas, com um tom de liberdade e a sensação de ser ela mesma depois de tantos meses.

Uma avenida movimentada definitivamente não é o melhor lugar para se deixar levar, mas a maldita música, no medíocre rádio do carro, trouxe à tona todos os sentimentos que ela tentou esconder de si mesma, dentro de si mesma. Ela procurou um lugar para estacionar, mas ficou com medo, medo de além da brutalidade dela mesma, ser mais uma vítima da violência dessas selvas de pedras em que vivemos, ou melhor, sobrevivemos. Tentamos sobreviver.

Permaneceu no carro, procurou novas músicas, algo impossível para sua playlist. Optou pelas rádios, que apenas tocavam músicas sofridas sobre traições. O destino não estava conspirando a seu favor. Procurou seus óculos dentro da bolsa. Os óculos que ela ainda estava pagando, parcelado em dez vezes sem juros. Os óculos que levaram as férias e o décimo terceiro. Os óculos que iriam salvar ela de ser considerada louca. Pelo julgamento de desconhecidos, que nada tem a ver com a vida dela, mas são ótimos em julgar mulheres loiras em carros vermelhos. Ela não encontrou os óculos muito menos a carteira. Encontrou as chaves de casa. O chaveiro todo sujo, depois de tantas idas e vindas. Encontrou alguns olhares curiosos, outros de compadecimento. Houve alguns com um riso abafado. Sofrimento alheio é algo que causa riso frouxo em pessoas com situações piores.

O tempo passava e a quilometragem também. Apenas a dor permanecia imutável. A angústia diminuía conforme as lagrimas rolavam pelo seu rosto, finalmente limpo da máscara alegre que ela usava. As ideias começaram a fluir. E a dor não passava, mas a angústia diminuía, as ideias fluíam. Deixar-se levar pelos próprios sentimentos são necessários vez ou outra.

Ela conseguiu chegar em casa, viva e salva (por ela mesma). Com as mãos trêmulas encontrou os óculos. Sem paciência para procurar as chaves, jogou tudo no chão do corredor, pegou o chaveiro. Foi recepcionada pela sua gatinha. Ela era amada. Ela era amada, era verdadeira. Dona de si, das próprias vontades e verdades. Não precisava sorrir para agradar ninguém. Estava orgulhosa de quem se tornou. Presenteou a felina com um patê, e preparou um banho de banheira com seus melhores sais de banho, guardados para pessoas especiais, ou uma futura visita da rainha da Inglaterra. Ela percebeu um tanto tardaria, o quanto era especial. Ela merecia o mimo.

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