Contos e Crônicas

Precedente da Aurora

“A página vira, o são, delira, então a gente pira. E no meio disso tudo tamo tipo… Passarinhos soltos a voar dispostos a achar um ninho, nem que seja no peito um do outro…”

casal

Eu acordo; assustada. Testemunho suas costas sendo tocadas pelos primeiros raios de sol. Baixinho, agradeço por ter você ao meu lado, por ser inteiramente sua, deixas-te eu fazer parte dos seus dias e contemplar as auroras ao seu lado. Eu me belisco para ver se é um sonho, tal qual aquele desenho antigo, que fixam em nosso imaginário. Sinto uma ardência repentina, causado pela autoflagelação, desta forma eu sei que é real. Mania besta de agradecer a dor, pois assim tenho a certeza que estou viva.

Esfrego os olhos com uma preguiça honesta, quero parar o tempo e escutar a sua respiração junto com o som que os pássaros emitem, o despertador vai tocar em breve, logo você vai abrir os olhos, selar minha boca com um beijo sonolento. Você vai colocar minha pantufa e sair porta a fora, procurando por café na cozinha, vai encontrar (sempre no mesmo lugar).

Adquiri uma mania de deixar as coisas no mesmo lugar, para facilitar sua procura quando esquece os óculos na mesinha ao lado da cama. Você vai franzir a testa e insistir que eu deveria parar de usar essas cafeteiras com cápsulas e explicar o mal que elas fazem ao meio ambiente e o quão ruim eu sou por contribuir com o acúmulo de lixo. Vai ver minha cara tristonha e me puxar para um abraço. Eu ganho outro beijo, – agora acordado-.

A cena se repete dentro da minha cabeça por horas, madrugadas, até você voltar e eu repetir minha senda; acordar minutos mais cedo apenas pelo bel prazer de escutar sua respiração. A luz varia conforme o dia, somos amantes da luz natural e da naturalidade como as coisas fluem. Eu poderia escutar você falar sobre qualquer coisa, deveras falar coisas interessantes, mas eu só consigo ver sua boca se mexer e entre uma palavra e outra eu lhe roubo um beijo. Faço pirraça: “fica mais um pouco”?

Eu sou sua. Mas não faz o que quiseres de mim, eu tenho meus horários, meus compromissos, meus medos estão aqui trancados, ao seu lado me sinto protegida e qualquer coisa que me aflige é esquecida com o seu olhar, no seu abraço eu sei que as coisas vão ficar bem, com as suas palavras de incentivo eu sei que sou forte e que consigo fazer qualquer coisa.

Eu sou sua, mas não diligencie-se em me moldar ao seu jeito, da mesma forma que não espero que você mude um milímetro por mim. Eu sei o quanto o seu cabelo é bagunçado, mas é nele que fixo meus olhos quando acordo, eu não suportaria um cabelo estrategicamente moldado com mouses, não suportaria ele ser raspado na máquina 3, eu gosto do seu cabelo (estrategicamente) bagunçado e poder puxar eles,  ver a sua respiração falhar. Gosto do jeito que a sua barba coça, gosto da alergia que ela me causa em lugares antes só conhecidos pela minha ginecologista e depiladora.

Gosto como minha voz estremece como o rosto cora, como a pele arrepia. Gosto como as coisas fluem, como o papo rende como o beijo sincroniza. Entre quartas de manhã, despertador gritando, café na cama aos domingos, sua testa franzida e o beijo com gosto de café; no final do dia é com você que eu quero estar. No final do texto me pego pensando que de todos os atos que eu amo, a ação de te amar é o que aquece o coração nesses dias cheio de conversas mesquinhas.

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