Contos e Crônicas Relacionamento Superação

Caetano, Cerveja Gelada e Barba Mal Feita

“Well, show me the way to the next whiskey bar. Oh, don’t ask why…”

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Nove reais a cerveja, caipirinha em dobro até a meia noite. A dúvida sobre a escolha do sapato aumentava, enquanto as voltas no relógio aceleravam. Amante de sapatos altos, e aquela arrebitada discreta que o uso deles proporciona pela sua bunda, -falsa impressão- de uma bunda sarada, já que o tempo para frequentar a academia foi perdido depois que resolveu aprender francês. Apaixonada pelo conforto que apenas os tênis surrados, atualmente aceitos pela sociedade e blogueiras no geral, podem conferir aos seus pés cansados, provenientes de uma semana turbulenta com prazos perdidos, crises de ansiedade no banheiro, e –o que jamais admitira- descontrole e lágrimas doídas no chão da cozinha.

Optou pelo salto, pela dose de confiança extra que eles lhe traziam. Quando chegou ao bar a Cinderela tinha ido embora, levando consigo a promoção de double drink. Ambiente escuro, sorrisos sinceros, demasiadamente sinceros para alguém que estava sóbria. Celular com pouca bateria e a fatura do cartão já tinha sido fechada, levando com ele o limite e os sonhos de escapar da realidade. Escapismos utópicos. Alguns rapazes bonitos, mas tinha um cara. Ah sempre tem um cara, no caso dela esse cara sempre vinha acompanhado de uma barba. Um sorriso que enganaria sua mãe passando-se por bom moço. Ele e seu sorriso bagunçariam seu psicológico em menos de três semanas. Aquela carinha que vai destruir seu psicológico e aumentar as suas visitas no terapeuta e a conta do bar. Aquele semblante digno dos caras cafajestes de filmes americanos. Em três passos, ela já imaginou os almoços de domingo, as crianças correndo em volta da mesa, a sogra gritando, pedindo ajuda para trazer a sobremesa. Em três passos, o futuro já tinha sido detalhadamente descrito em seu imaginário, e não posso nem descrever o que ela sonhou para aquela barba.

O som era agradável, parece mentira, mas ela jura que tocava Caetano, poderia morar naqueles 20 m2 mal iluminados. O dinheiro da conta de luz estava ali dando bobeira, a cerveja embora cara permanecesse gelada. Gelada para combinar com suas mãos de defunto como já escutou por aí, gelada tal qual seu coração e o sorvete que insiste em tomar mesmo quando os dias de inverno se aproximam. Quem precisa de energia elétrica quando se tem um cara de barba e algumas velas? Ela sorria, balançava a cabeça, ensaiava cirandas, e imaginava o perigo daquela barba roçando seu pescoço. Ela queria muito mais, ele tinha cara de ser de escorpião, ela era canceriana, mas que mal há nisso, se ambos são signos da água e embora poucos saibam, adoram uma dose de sacanagem bem medida. Ela saberia lidar com isso desde que deixasse suas expectativas trancadas na terceira gaveta do armário, junto de suas calcinhas beges. A indecisão do sapato e sobre gastar ou não o dinheiro da conta de luz, usaram mais tempo que o necessário, e nesse imaginário perdido, o horário de fechamento do barzinho chegou. O som acaba e as luzes acendem.

Os sorrisos sinceros eram apenas efeito da promoção que perderá. As pessoas não são interessantes, ou ela que está mais preocupada com as contas, o trabalho, e um nódulo no seio esquerdo. Essa fase de forçar sorrisos para fingir felicidade, em um feed monocromático do Instagram, não apetecem mais a ela.

Há outros bares, outros caras, e haverá outros sons e ambientes com Caetano. Por hoje o dinheiro da conta de luz estava salvo, e a sua sanidade mental também.

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