Contos e Crônicas Pensamentos Relacionamento

Almas cobertas e corpos desnudos

“Loving can hurt sometimes, but it’s the only thing that I know and when it gets hard. You know it can get hard sometimes it is the only thing that makes us feel alive…”

dam

Chega a ser bizarro ver duas pessoas que não sabem nada mais que o nome um do outro, desempenhando papeis tão íntimos, onde os protagonistas da situação deveriam, no mínimo, terem alcançado além do que os olhos são capazes de entenderem. Chega a ser ridículo, ver olhos pousados demoradamente sobre um corpo despido, enquanto a alma permanece coberta. É estranho estar nu, quando não se é capaz de despir a alma. Muito se lê sobre a ausência de conexões mentais, e a superficialidade das ligações físicas. Será que somos apenas mais um número destes clichês modernos?

Eu tenho pressa pelos seus beijos, quase fico calma quando pouso minha cabeça no seu peito, recebo um cafuné e fico rindo de alguma besteira por parcelas de segundo. A risada é verdadeira e o motivo dela faz sentido para nós. Perdão por juntar eu e você em um pronome único. Aquela conversa, um pouco mais aprofundada sobre um assunto qualquer causou um arrepio gostoso, eu quase acredito que é você, mas no meu íntimo algo me segura e fixa meus pés e todos os pensamentos românticos que um dia eu poderia ter. Eu fico trêmula quando você reveza sua mão direita entre o câmbio do carro e a minha coxa esquerda, para depois descer as escadas do seu prédio em silêncio, e torcer para não ser notada por ninguém. Dia ou outro sinto falta do convívio com alguém além de mim, pois no final de tudo eu continuo sozinha, e esse tipo de relacionamento superficial não me interessa, e nunca interessou.

A questão toda gira em torno de não querer estar com você, estar em um momento em que a minha presença basta, não tolero pequenos atos falhos, não preciso ocupar meus pensamentos com ninguém além de mim. Eu afirmo que não é egoísmo, é apenas o meu medo de deixar alguém entrar e ser molesto com superficialidades diferentes das minhas.  Eu sinto falta, eu tenho carências insolúveis, eu não tenho cartão ilimitado, eu não posso comer uma panela de brigadeiro e ligar para a minha mãe; chorando não parece uma solução sensata. A carência apresenta-se, o corpo reclama. Digito o seu nome, envio uma mensagem, sem pontuação, eu realmente tenho pressa de estar com você. Eu não quero ver o seu rosto quando eu acordo, mas estar sempre sozinha e acreditando que isto é uma opção, em determinadas épocas do mês fica notório que é solidão e quando passa, porque você bem sabe que passa, perde a graça, eu vejo que foi apenas pirraça e a palhaça fui eu.

É uma bipolaridade risível, quase chegar ser disparato usar termos médicos, para falar da minha falta do que fazer, e destes jogos de não saber o que quer, quando bem na verdade eu não sei nem ao menos o que não quero. Acordo com vontade de café na cama, e mãos entrelaçadas, mas quando lembro que vou acordar com a cara amassada e nos primeiros meses irei acordar minutos mais cedo, para escovar os dentes sem pasta de dente para você não desconfiar, escovar o cabelo antes de você abrir os olhos, eu sinto vontade de esquecer tudo e continuar com as juras de amor de 12 horas. Tento me convencer que isto basta.

Até que ponto não amar alguém com ideais românticos é algo bom? Não seria o amor que move o mundo?  Acreditar em alguém e esperar que os dias dessa pessoa sejam sublimes, ficar realizado com as vitórias de outra pessoa, ter alguém logo ali torcendo por ti e ajudando a enfrentar as adversidades da semana e de uma vida toda, aliás por que não uma vida inteira?

Comments

comments

You Might Also Like

No Comments

Comente