Não chegue na hora marcada.

 

Olhou bem fundo no espelho de sua alma e disse: agora vai! Tá com medo?! Vai com medo mesmo, mas não perca mais esta oportunidade. E seguiu o caminho ao acaso, repetindo, vez em quando, uma dessas frases, clichês nas boleias de caminhão e nas dramáticas postagens do Instagram. Não vai amarelar – ela se ordenou uma última vez.

Toda essa veemência era necessária visto ao fiasco que as tentativas anteriores tinham sido. 20 anos antes, ainda menina, boba e amiudada pela falta de experiências, ela deixou de lado a chance de ser feliz. Ok! Diferentemente daquela época, na qual ela acreditava no mito do príncipe encantado e do felizes para sempre, hoje ela não aposta em felicidade eterna. Aprendeu que a vida se constrói feliz com base em momentos e foram estes os quais, lá atrás, ela deixou de viver por conta de coisas frívolas.

Agora não. Agora era diferente. Agora ela era uma mulher, lá pelos 30 ou talvez beirando os 40, com uma conta bancária abastecida e o mundo inteiro em suas mãos. Não havia o menor motivo para desistir, procrastinar ou simplesmente não ir. Mas, mesmo assim, tal e qual uma menina abestalhada, ela estava paralisada de medo. O pior de tudo, ela sabe, é que eram esses medos idiotas contra os quais a gente tanto luta: será que ele ainda vai gostar de mim?! Será que estou mais gorda ou mais magra?! E a idade, será que pesa?! E, apesar de ter um séquito atrás dela gritando – foda-se! ele tem que gostar de você assim!! -, ela seguia gélida com a possibilidade de uma rejeição nunca antes experimentada.

E, tal e qual aquela antiga música, o mundo havia girado, ela malhou que só a gota, arrumou o cabelo e a alma e foi lá, decidida a ir definitivamente ao encontro do seu passado. Acima de tudo e, apesar de tudo, era hora de pensar mais nela mesma: no que ela realmente queria e esperava da vida e, pelo menos, dar um ponto final decente a toda aquela história. Aquela mulher precisava de novas memórias e iria construí-las a qualquer custo.

Em frente ao espelho da sua alma, entretanto, ela foi compreendendo que todas aquelas camadas somente escondiam sua verdadeira essência, aquela pela qual ele havia se apaixonado tantos anos antes. Aceitou, então, sua beleza natural, esculpida entre as rugas, gordurinhas e marcas na pele ao longo dos anos, mas também com os muitos goles de cerveja, farras com amigos, vitórias e conquistas alcançadas. Aquele encontro pedia, necessariamente, muito mais de alguém que ela sempre escondera: ela mesma.

E desde que essa história (re)começou, ela vem aprendendo a se enxergar com mais complacência e amor; mais cuidado e mais carinho, pois, no fim das contas, seja lá o que tiver de acontecer, depende apenas de ela estar segura e feliz com quem se tornou, com a vida que viveu e com quem compartilhou tanta estrada. Quase sem querer (será?!), este amor do passado resgatou a mulher que ela, de repente, havia se tornado. Tirou-lhe do automático, devolveu-lhe o arrepio no pescoço e a certeza de que, como dizia Antoine de Saint-Exupéry, em seu lépido e fantástico “O Pequeno Príncipe”, “só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”.

 

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