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Feliz Dia da Independência das Filipinas

“But keep the change cuz I’ve got enough a little time and some tenderness. You’ll never buy my love…”

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Toda segunda-feira acordo cansada. Cansada pelo final de semana intenso, cansada pela noite mal dormida, pensando em todas as tarefas que tenho de exercer durante a semana e principalmente cansada de tantas promessas mortificadas e enterradas quando o dia amanhece. Eu ignoro o despertador; uma, duas, três vezes. Ignoro a dor de cabeça, meu estômago gritando, meu ego ferido e uma mancha de café no meu pijama novo. Eu consigo levantar da cama, colocar um cachecol que esconde a mancha, um casaco sobre a roupa que dormi. Escovo os dentes com a mão direita, enquanto a esquerda prende meus cabelos em um coque bagunçado; aliás, obrigada Pinterest por glamourizar meu penteado habitual. Eu poderia acordar mais cedo, prestar atenção no primeiro som que o despertador faz, poderia escolher minha roupa na noite anterior, deixar os pijamas apenas para dormir, comprar um Vanish, preparar um café e algumas torradas para mim mesma, a fim de amenizar a dor no estômago, mas vou levando. Apertando o botão do elevador 17 vezes em um tentativa frustrada de ele vir mais rápido, ignorando a luz vermelha do combustível, porquê eu nunca tenho tempo de abastecer antes do primeiro turno.

Uma segunda despretensiosa e medíocre, como qualquer outra, ou como qualquer dia da minha vida nos últimos meses. Seria uma segunda corriqueira, até eu notar meu feed repleto de corações e declarações, fotos com sorrisos sinceros, outros desesperados posando para um teatro ridículo, mãos entrelaçadas, frases de Clarice, músicas do Cicero, letras do Jorge e Matheus e mais corações, rosas, vermelhos, multicoloridos. Eu poderia vomitar ali mesmo, no teclado do computador, na frente da minha chefe e dos meus colegas que já me julgam mal e provavelmente culpariam minhas doses de destilado do final de semana. Neste momento, eu quase agradeço por estar de estômago vazio e economizar uma vergonha neste fatídico dia.

O gosto amargo na boca volta. Um ano que esta data não representa algo bom para mim, apenas mais um dia em que grito DESESPERADA, tratar-se de uma invenção capitalista, afirmo não passar o dia da árvore abraçada em uma, afirmo para mim mesma que irei economizar em presente. Posto imagens alertando os apaixonados a não fazerem parcelas do presente mais longas que o relacionamento, mas no fim resume-se á uma necessidade de querer estar com alguém, dividir um cobertor, um café, um litrão barato no barzinho da esquina ou um vinho importado. Suplico ao destino por uma explicação de estar sozinha, e por não despertar aquela vontade de ficar nas pessoas. Passei da fase de culpar meu cabelo, minha voz, meu corpo. Aceitei que não sou apaixonável.

O relógio se arrasta tal qual eu mesma durante o dia. Troco o almoço por uma porção de fritas, para lembrar ao meu estômago que eu que mando. Arrependo-me em seguida, finjo não estar acontecendo nada e torno a exacerbar minhas escolhas. Reflito em como era infeliz em relacionamentos forçados, em como desisto das pessoas nos primeiros vacilos, em como aprendi a valorizar minha própria companhia, e em como (mesmo com a ressaca arrebatadora) sou feliz nas segundas-embora exausta-. Estou solteira, mas não necessariamente sozinha. Tenho minhas amigas, tenho vinho, tenho a liberdade de ir para qualquer lugar, tenho amor próprio; e isso depois dos meus últimos relacionamentos é o maior presente que poderia dar a mim mesma. Vou para casa, abasteço o carro, passo no shopping e escolho algo para me presentear. Eu mereço um mimo por aguentar minha inconstância diariamente. Compro o tira manchas, frutas, torradas prontas, abasteço o estoque de remédio para dor de estômago, o antiácido, compro barras de chocolate, uma massa importada e os ingredientes para fazer um molho especial.

Assisto de longe casais passando felizes, e então respiro aliviada por também estar assim; FELIZ. Não ter alguém para compartilhar as dores do dia, chega ser ofensivo com as minhas amigas que estão sempre juntas para me apoiar, ajudar a segurar a barra e o cabelo quando necessário. Eu não tenho dores de cabeça por brigas mesquinhas, as de ressaca resolvem-se facilmente com uma aspirina, não tenho preocupações além das que eu mesma crio. Tenho ciência que meus antigos relacionamentos foram conturbados, então talvez eu só não encontrei a pessoa certa, mas por enquanto eu realmente me basto. Eu comprei um pijama novo livre de manchas, eu vou preparar o melhor jantar para a melhor pessoa, escolher uma maratona de filmes, e fazer uma panela de brigadeiro. Porquê eu mereço o melhor de mim, aguento minhas falhas e adversidades, corrijo meus defeitos de forma branda. Mereço aproveitar a melhor parte de mim mesma. A minha receita de molho de tomate  e a torta de limão são uma dessas vantagens de se conviver comigo.

Nota da autora: Indico para as enamoradas por si mesma uma maratona contendo Breakfast at tiffany’s,  Mean Girls e 13 Going on 30. A receita do molho é real, mas poucos são dignos desta iguaria. <3

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