Contos e Crônicas

A vida não parou

90 dias mal dormidos
10 filmes melosos
1cd da Marília Mendonça
3 potes de sorvete
22 barras de chocolate
4 quilos a mais
2 corretivos da Mary kay
12 cartas anônimas que nunca foram enviadas
2 mudanças de cabelo

Esse foi o meu arsenal de guerra pra tentar superar os primeiros 3 meses em que nós terminamos,
Ou melhor, os 3 meses em que você simplesmente decidiu que eu não faria mais parte da sua vida.
“Tá tudo indo rápido demais” você disse enquanto mal desgrudava os olhos da tela do celular.

Eu passei dias imaginando o que de tão importante poderia ter naquela tela tão pequena que conseguiu prender sua Atenção de maneira tão grande, eu sei que provavelmente eu tinha coisas muito mais importantes para pensar,
Como por exemplo o por quê da sua decisão repentina ou talvez no que seria “rápido demais”,
Afinal já estávamos juntos a 7 meses, ou talvez com o fato de você ter esperado chegar um dia antes do meu Aniversário pra fazer aquilo.

Mas não.
A única coisa que se passava na minha cabeça como uma pergunta incansável era:
“o que poderia ter naquela tela de 5 polegadas que fosse mais importante do que olhar nos meus olhos no momento mais difícil da minha vida?”

Eu queria muito saber, queria mesmo, era isso que eu me perguntava a cada colherada de sorvete,
A cada mordida no chocolate, a cada lágrima derramada quando o casal no filme se beijava apaixonadamente.
O que tinha naquele celular?
O que era tão mais importante do que eu?

Eu não sabia. E ainda continuo sem saber.
E acho que de fato nunca terei uma resposta, mas quer saber de uma coisa?
Eu desisti.
Eu oficialmente joguei a toalha.
Parei de me perguntar, parei de me torturar,
Por que depois dos primeiros 3 meses em que eu me mantive afundada na minha dor e no meu desejo imenso de Desaparecer, eu percebi que eu ainda estava ali, não importava o quanto eu quisesse sumir, eu não sumia.

Então, um dia eu levantei da cama, joguei a metade da barra de chocolate que estava escondida debaixo do meu travesseiro fora, tomei um banho gelado e saí.
A cada passo que eu dava na rua era como o meu primeiro passo em 3 meses,
Eu já tinha me acostumado a andar olhando para os próprios pés pra evitar os olhares de pena que eu tinha pavor de Encontrar, mas naquele dia resolvi encarar e imagina só minha surpresa quando eu não encontrei nenhum.
A maioria das pessoas passavam por mim apressadas demais,
Elas corriam ao atravessar a rua, corriam pra pegar o ônibus, corriam pra alcançar alguém,
Elas nem ao menos me percebiam.

Eu andei mais um pouco, até aquela sorveteria que nós sempre íamos juntos
E que por isso eu tinha evitado até passar perto e quando eu cheguei lá ela ainda estava aberta,
Ainda tinham casais rindo enquanto dividiam uma taça de sorvete e crianças se lambuzando com picolé de uva Enquanto os pais batiam fotos, tudo igual, nada parou.

Eu pedi o sorvete do mesmo sabor de sempre e pela primeira vez em 3 meses ele realmente tinha gosto de sorvete, Não estava salgado por causa das lágrimas, estava doce,
Tão doce quanto um sorvete de morango deve estar em pleno verão.

A moça que me atendeu sorriu, aquele mesmo sorriso simpático e animado que eu me lembrava,
Isso me obrigou a sorrir de volta, até que na metade do sorriso já não era mais uma obrigação,
Era um agradecimento.

Um agradecimento por ela me ter feito lembrar que eu ainda podia sorrir.
Eu escolhi a mesa de canto.
Aquela que nós sempre sentávamos perto do ar condicionado já estava ocupada por outro casal.
E enquanto eu estava lá sentada, pela primeira vez em 3 meses eu realmente ri,
A risada saiu naturalmente enquanto eu olhava para o menino que explicava pacientemente para o pai que a culpa da Blusa dele ter sujado não era dele e sim do picolé que era roxo e derretia rápido.

O pai me olhou e não achou ruim eu ter rido,
Ele apenas riu de volta pra mim e disse “Crianças” ele tentou fazer uma careta,
Mas o sorriso não abandonou seu rosto e nem o meu,
Por que eu estava finalmente descobrindo algo importante naquele momento.

Eu percebi que a vida não parou,
Ela nunca para,
Enquanto eu estava jogada na cama me sentindo a pessoa mais sofredora do mundo,
A vida seguiu.

Eu precisei daqueles 3 meses, de cada dia deles,
Precisei chorar, perder o sono, engordar, me sentir rejeitada,
Mas ali, sentada naquela cadeira de canto foi quando eu vi que a vida não tinha acabado por que você me deixou,
Na verdade, ela estava só começando.

E no final de tudo mesmo com todo meu arsenal de guerra,
A única coisa que me te fez superar foi perceber que eu estava viva
E continuaria viva mesmo sem você do meu lado.

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