Contos e Crônicas

Demônios adestrados

Eles cantavam uma musica em corro, de mãos dadas, na beirada da cama. A música não era tão ruim, eles até que eram bem afinadinhos, os demônios, os seus demônios. Ela observava de olhos bem abertos, eram quase três da manha e estava sem sono. Uma tempestade começava lá fora, com rajadas de vento uivantes.

Talvez a chuva a ajudaria a dormir. Virou para o outro lado afofando o travesseiro na esperança de conseguir alcançar o sono. Os seus companheiros de quarto começaram a cantar mais alto para abafar o som da tempestade, quando a música chegou no refrão, ela virou para o outro lado. Possuía o mesmo afinco de um cão que dispara atras de um carro em alta velocidade, e como este, falhava miseravelmente.

Um dos vultos fez um falsete e se engasgou, os outro deram uma risadinha antes de voltar a cantar. Ela os conhecia muito bem, já havia dado apelidos carinhos a quase todos eles. As vezes, eles parecem que haviam sumido, as vezes, a luz que entrava pela janela iluminava todo quarto e não haviam sombras. Eram dias mornos, eram tempos de paz. Então, mesmo quando não havia por quês, eles apareciam animados, sentavam todos arrumadinhos do lado da cama e conversavam com ela noite a dentro. Era assim que funciona, eles vinham de surpresa.

Eles eram bagunceiros no começo, com o tempo aprenderam a se comportar. Sem alguma ordem no caos, não haveria espaço para todos eles, descobriram que tudo ficaria bem se cada um falasse de uma vez ou cantassem a mesma música todos juntos.

Eles eram bons, muitos bons no que faziam. Atormentar. Eram capazes de convencer qualquer um das coisas mais malucas. Eram amplificadores dos pensamentos mais frágeis, que se afloravam em cores pastéis e nefastas pelas paredes do quarto. As vezes o seus monstros dançavam no escuro. Ela escutava seus passos valsando, girando perto da porta, passando do lado da cama.

Ninguém os via, ninguém poderia os ver. Talvez fossem capazes de ver suas olheiras no outro dia, ou desconfiar que ela lutava uma guerra secreta. Fora isso, era só uma coisa entre quatro paredes, o ensaio noturno de uma peça sobre sua vida, que falava de momentos do seu passado e do seu futuro. Eles se vestiam de forma bem parecida, faziam as vozes bem certinho. Eram exatamente iguais a todas aquelas pessoas que passaram pela sua vida. O problema era eles não serem lá muito positivos. Não encenavam as partes que ela gostava. Implicavam com os erros do roteiro e com tudo que ela deveria ter feito.

Quando acordava a noite, de forma repentina com o barulho, ela ficava lá, só observando, as mãos sobre a barriga. Eles gostavam muito que ela aprovasse tudo aquilo e não lhe deixariam dormir antes de terem certeza que estavam fazendo seu papel muito bem. Lembrar de tudo que era queria esquecer.

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