Contos e Crônicas

Não serei eu

Você ignorou todas as indiretas diretas que te mandei ontem. Você ignorou aquele texto de 500 palavras sobre o quanto eu queria que tivesse sido você. Você preferiu seguir seu rumo sozinho, quer dizer, não sei se sozinho. Só sei que sem mim.

Sabe, um dia cê vai ter alguém pra chamar de amor. Alguém pra te dizer “dorme bem” antes de ir embora. Alguém que faça teu coração vibrar com um sorriso.

Que vai te beijar antes de dormir.

Não serei eu.

Eu não vou ouvir tuas histórias bobas e te parabenizar com um sorriso no rosto a cada conquista daquele teu sonho. Poderia, mas você não deixou. Insistiu que seria melhor apostar no seu orgulho de bom leonino e continuar firme e forte sem mim.

Alguém que vai escrever um verso bonito sobre o teu sorriso. Não tão bonito quanto os meus, confesso. Tenho todos guardados até hoje naquele caderninho vermelho que você me deu, mesmo depois de ter me pedido para tacar fogo em tudo que trouxesse a tona o seu esquecido amor.

Pois é, me recusei.

Você sabe que teimosia sempre foi minha marca registrada, assim como eu sei que não devo levar ao pé da letra tudo o que você diz. E é por isso que continuo te escrevendo, mesmo sabendo que não sou e não serei o motivo da sua alegria.

Não serei eu a dona do abraço que te embala pela manhã antes do trabalho. Não serei a dona dos olhos que refletem tua imagem adormecida no domingo. Que inveja se quem terá a sorte de ser.

Te imaginei tanto que sei cada detalhe teu. E quando fecho os olhos consigo enxergar aquela sua pinta do lado direito, em cima da barba. E te imagino todos os dias, pra não correr o risco de esquecer do seu rosto de menino mau. É o meu rosto preferido.

Você também deve ter um.

Mas não é o meu.

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