Contos e Crônicas

EU ME AMO EM PRIMEIRO LUGAR

Escrevo o título Aliança espremida e clico em uma ferramenta, para pôr em negrito. Essa denominação para o vídeo com fotos nossas fala muito sobre o nosso relacionamento, mais precisamente sobre o fim. O porquê desse vídeo? Não sei. Possivelmente para parar um pouco essa saudade existente em meu coração. O computador pesa, como se meus sentimentos estivessem se teletransportando para ele.

Estávamos selados com um pacto. Ele consistia em: amar sem pressão, dar sentimentos e retribuir paixão, não ultrapassando a nossa própria. Mas você transpassou. O seu amor-próprio se esvaiu numa torneira grudada em seu âmago. E, infelizmente, você não cessou.
Seu querer enlouquecido em ser amada me pressionou, como se você me empurrasse para o seu coração. Você pedia mais e mais e eu te dava MAS; mas e o meu sentimento pessoal? Era completamente inútil aos seus olhos. Eu te entreguei várias emoções, uma por dia, mesmo que se repetissem. E você continuava pedindo mais e mais e eu te dava outro MAS; mas o meu coração também precisa disso.

Posso parecer narcisista, mas não sou. Eu simplesmente passei por um intenso processo sozinho, para poder conseguir me amar. Bato no peito e afirmo para mim mesmo que consegui. Lembro que ficamos mais desgastados, pois você sempre ironizava o meu amor, despreocupada com o seu. Isso só fez a nossa aliança se imprensar. Se imprensar até… sumir. E você explodiu, tentando jogar o anel que te dei em mim. Mas ele não saiu, nem mesmo com manteiga, sabão e outros meios. Ele ficou espremido no seu dedo, deixando minha marca em você, que me quis tanto por completo, mas num momento raivoso já estava querendo se desfazer de um presente tão simbólico e parecido comigo. Imaginei que ele pudesse ser tirado com calma, assim como o nosso pacto podia ser continuado, com paciência e ajuda mútua.

Paro minhas lembranças e abro uma pasta com milhares de fotos minhas e suas, juntos e separados. Umas mostram seus mais variados sorrisos, tão lindos e encantadores, mas também tão irônicos e maus. Fico triste por isso. Eu amo seu jeito, amo você, amo seu cheiro. Nós teríamos uma relação boa, se seguíssemos a aliança. Nós, entretanto, não conseguimos. Quero dizer, eu não consegui por sua causa. Só restaram ressentimentos em você e só amores, saudades em mim. Eu iria me entregar mais a você, mesmo sendo eu o primeiro lugar no pódio das minhas prioridades. E nesse pódio, eu ganhei medalhas necessárias, que agora enchem o meu pescoço, mas que eu iria dividir com você, pois você era minha companheira. Pena que você queria ser minha única companhia, fazendo coisas para que o meu próprio companheirismo sumisse. Mas ele é forte, meu bem.

Escolho cinco fotos, dentre elas, uma superantiga. Abraçados, enrolados e entregues, é assim que nós aparecemos nessa imagem, tão bonita e sincera. Eu não consigo entender como terminamos tão mal, se fomos felizes juntos. Pelo menos eu achava que éramos.
Ainda não sei qual música pôr nesse vídeo. Penso que a música deve ser usada em momentos bons, mesmo que ela seja tristonha. Resolvo, então, não pôr nenhum som. Coloco outras fotos e faço a edição precisa. Com o vídeo pronto, o assisto diversas vezes, perdendo totalmente a conta, mas me perguntando se devo te enviar.
Não, melhor não. Fecho o computador, já tão quente, e abro meus pensamentos mais íntimos. Sinto que preciso doutras medalhas em meu pescoço, principalmente uma com sua foto e, embaixo, escrito: saudade esquecida.

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