Contos e Crônicas

Pra você, que não mora mais em mim

Quando eu era criança, pensava como criança, agia como criança e era feliz. Todos os dias, fim de tarde, eu ia para a casa do meu avô, quebrar pedrinhas e plantar sementinhas no jardim. Essas lembranças ainda me chegam enevoadas, como se fossem sonhos. Elas me dão a certeza, quando tudo vai mal, que, de uma forma ou de outra, eu fui feliz.

Reencontrar você, ao contrário do que eu acreditava, foi um acidente de percurso. Ok. Eu passei vinte anos acreditando no conto na carochinha – naquelas coisas de menina e seus príncipes encantados. Dê uma forma estranha, eu sempre mantive comigo a certeza de que você ressurgir ia, impávido e belo, trazendo de volta o brilho perdido dos meus olhos.

E você voltou. Parecia o meu menino, meu grande amor, aquele que despertará em mim os mais belos sentimentos juvenis. Eu acreditei que era você quando escutei aquela voz que, de fato, eu nunca sequer esqueci. Mas acontece que não era você. Você havia sumido na grossa névoa daqueles vintes anos e, no seu lugar, surgiu um cara egoísta, mesquinho cafajeste e covarde. Não: definitivamente você não era mais o meu menino. Ou, por outro lado, talvez estivesse revelando o seu verdadeiro eu que, assumo, eu nunca conheci. A verdade é que os anos te roubaram de mim muito mais do que a distância que, um dia, nos separou.

Passou. Era isso que eu queria dizer. Aquele amor que eu guardei tão carinhosamente por todas essas luas sumiu, murchou. Diluiu-se no mar de uma lama suja a qual encobriu tudo de lindo que um dia fomos. Eu quis, de verdade, saber o que havia acontecido. Questionei, reclamei, quase implorei para você confiar em mim, desabafar essa coisa doida que fez você mudar assim. Mas você emudeceu. Fez comigo o que calhorda faria. Me deixou ao léu, sozinha com esse tanto de pergunta que, tresloucada, gritam dentro de mim. Mas, caro amigo, calou-se. Tudo que um dia era estardalhaço aqui dentro, cobriu-se de silêncio e amargor.  Hoje não há, definitivamente, mais espaço para você em mim.

O máximo que eu posso te dar é um espaço empoeirado lá no alto da estante das minhas memórias. Aquele lugar inalcançável e que, aos poucos, vai ficando empoeirado e esquecido. É esse o lugar que oleu guardei para alguém que, um dia, foi tudo pra mim. Não reclame, ok?! Tudo isso é culpa sua, responsabilidade dos atos sujos que você vomitou em mim. Então, parabéns, você conseguiu. Você não está mais em mim.

E isso é uma pena.

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