Desenvolvimento Pessoal

Quebra de silêncio

Suicídio. Às vezes, não nos damos conta do quão isso está presente na sociedade. Estipula-se que, a cada 40 segundos, alguém comete tal ato e, ainda assim, o assunto é pouco abordado. Essa falta de abordagem acontece devido a diversos fatores que são realmente difíceis e complicados de serem tratados. Confesso que cheguei até a fazer pesquisas para escrever sobre tal tema, mas o intuito deste texto não é tratar desses fatores especificamente, não é apresentar dados ou pesquisas, o intuito é atender à necessidade de atenção que o suicídio pede.

Recentemente foi lançada pela Netflix a série “Os 13 porquês” que teve grande repercussão. Esta produção trata do suicídio e de alguns de seus motivos, os quais são contados em fitas deixadas pela protagonista. Trazendo para realidade, é possível perceber que tem se tornado cada vez mais frequente o ato de deixar cartas de suicídio. Mas, nesses casos, não há como e nem se deve romantizar o fato, como aconteceria em outras circunstâncias por se tratar de uma carta. Dessa vez, está longe de possuir uma característica romântica.

No geral, cartas são escritas e endereçadas às pessoas que se encontram longe do remetente, mas as do suicídio em questão são justamente ao contrário, sendo direcionada às pessoas próximas, especialmente às que moram na mesma residência. Fazendo uma reflexão, é possível chegar a uma linha de raciocínio em que as pessoas estão tão distantes umas das outras que até mesmo familiares e amigos estão escassos de afetividade a ponto de uma despedida ser feita por meio de um papel.

Mas uma pessoa que pretende cometer tal ato não escancararia isso. Certo? Infelizmente, certo, em partes. O suicídio não é uma decisão repentina, não é uma atitude tomada no fervor do momento, não é uma fraqueza e também não é uma loucura porque talvez loucura para um suicida seja viver neste mundo cruel e individualista. O suicídio é o resultado de vários acontecimentos devastadores da essência da alma, é o famoso “efeito bola de neve” ou “efeito dominó”. É a soma de todos os momentos que separadamente mataram uma parte interior de alguém, restando apenas acabar com a maior (ou menor) delas, a vida do corpo, uma vez que a da alma já se fora.É como a frase dita na internet após a repercussão da série já citada:“Não é suicídio se você já está morto por dentro’’.

Por se tratar de uma junção de fatores que acontecem ao longo do tempo, o suicida pode não escancarar, mas acaba por deixar transparecer, sim, alguns sinais que, infelizmente, na maioria das vezes, passam despercebidos. Esses sinais são um pedido de ajuda disfarçado e um modo de avisar a situação em que a pessoa se encontra. Além disso, também existem os motivos que, apesar de variados, possuem um enfoque grande no bullying e na depressão, além da questão da saúde mental. Mas o problema é que tanto os sinais quanto os motivos não recebem a atenção necessária e, muitas vezes, quando notados, se tornam causa de julgamentos.

Julga-se a pessoa viva, julga-se a pessoa morta. Julga-se toda hora, julga-se tudo. Mas o pior mesmo é que se julga sem nada saber. Se a pessoa se automutila, ela é doente, faz isso por “modinha”. Se a pessoa posta algo ou apresenta comportamento com característica depressiva, ela está apenas querendo chamar a atenção, se fazer de “coitadinha”. Se a pessoa desabafa, mas não segue o conselho dado, já não se pode fazer mais nada por ela. Certo?Errado. Sempre se pode fazer algo, nem que seja apenas continuar presente, fornecendo algum tipo de apoio positivo.

Em todos os lugares, existe alguém precisando de ajuda. Existe alguém segurando um enorme peso sozinho, tentando se manter em pé e não desabar. Existe alguém se sentindo atormentado e afundando em uma intensa escuridão. Existe alguém buscando apenas um motivo para não desistir e continuar lutando para manter acesa a última faísca de esperança. Existe alguém prestes a jogar tudo ‘pro ar’ e dizer “Chega!”. Existem muitos desses alguém por aí, até mesmo perto de você. Mas também existe aquela pessoa que pode ser a ajuda, a força, a luz, o bom motivo ou quem o apresente, e essa pessoa pode ser você.

Seja disponível. Seja disponível para uma conversa, um “bom dia”, um elogio, um abraço ou apenas um sorriso. São coisas simples que, para você, podem não ter muito significado, muita importância, mas que podem ajudar a melhorar, pelo menos, um pouco, o dia de alguém e, em alguns casos, os últimos dias. Só que, se você não abrir os olhos da sensibilidade e não fizer nada, esse alguém não vai estar lá por muito tempo.

E então, por que precisamos falar de suicídio? Porque, se não falamos, cai no esquecimento e, se cai no esquecimento, não se faz nada a respeito e, se isso acontece, o suicídio só continua ocorrendo em números cada vez maiores. Portanto, não nos calemos. Eu sei que não é algo fácil de falar, mas, por ser necessário, faz-se mais forte do que a dificuldade. Falemos de suicídio. Falemos no colégio, no trabalho, num grupo, numa rodinha de amigos. Não importa o lugar, e sim a abordagem do assunto. Deixemos de lado essa visão de que isso, juntamente à automutilação, é frescura, fraqueza, chantagem, uma forma de chamar a atenção e todas as outras críticas que são feitas. Sejamos mais humanos! Tenhamos uma essência mais humanitária!

 

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