Desenvolvimento Pessoal Relacionamento

20 e poucos.

Todo mundo costuma dizer que a adolescência é uma fase complicada, muitas descobertas, hormônios à flor da pele, um monte de dúvidas sobre o futuro, pressão do vestibular, partidas de coração. A adolescência é um caos e todo mundo me contou isso, então eu meio que sabia que teria que nadar nessa corrente de inseguranças que a gente vive dos 15 pra frente, só que quase ninguém diz é que a crise da adolescência é fichinha perto da crise dos 20 e poucos anos.

O que eu chamo de crise dos 20, é esse limiar que existe entre ser jovem e ser adulto. Ok, concluí a faculdade, após longos cinco anos de graduação, finalmente é hora de abandonar o cargo de estagiário e dar os primeiros passos sérios no famigerado Mercado de Trabalho, deveria ser tudo um sonho, mas é meio que um pesadelo sem despertador pra acabar com ele, afinal o trabalho não aparece assim tão rápido, você é jovem demais pra ter tudo que sempre quis, mas já sou adulta o suficiente pra saber que algumas decisões que eu tomar agora irão impactar de maneira definitiva o resto da minha vidaJunto dinheiro e compro uma casa ou dou um jeito de viajar? E de repente o curso que fiz durante cinco anos parece ter um significado absurdo no meio disso tudo. Era isso mesmo o que eu queria? E se eu tivesse feito outra coisa?

Um monte de dúvidas pipocam na cabeça e o mundo inteiro parece muito próximo e ao mesmo tempo muito distante, não há mais uma conclusão próxima, como era o fim da faculdade, não há mais um momento pra depositar as esperanças, a vida não vai mais mudar radicalmente em um prazo marcado, a não ser que você decida por isso, e decidir isso é uma responsabilidade enorme, que assusta demais!

Creio que essa é a fase que você sente o seu destino nas mãos, como em um jogo de damas, você pensa 5x antes de executar qualquer movimento porquê dessa vez é pra valer, não tenho espaço pra erros. Pela primeira vez na vida eu que sempre fui meio impulsiva, tenho um receio considerável de tomar decisões e não existe um manual sequer pra seguir. O relógio engole os segundos que restam pra realizar os sonhos e muitas vezes você já nem sabe mais quais eles são. Tudo muda muito rápido. Parece que te jogam numa enorme cidade desconhecida e sequer o telefone do Uber você tem para pedir um. Indo na minha intuição, tenho aprendido algumas coisas com isso que gostaria de dividir.

A primeira delas é que existem dores piores que um pé na bunda. E eu aguento passar por elas. Pode parecer bobeira, mas é bom demais saber que aquele término de um relacionamento abusivo que me deixou no chão e com depressão, na verdade não era nada e que, atualmente, eu consigo passar por muito mais coisas sem sequer me abalar ou chorar.

Mas eu também aprendi que tudo bem chorar, a gente precisa extravasar esse monte de coisa que a gente carrega. A gente precisa chorar até dar dor de cabeça, a gente precisa mandar áudio de quinhentos minutos chorando pros amigos, a gente precisa falar, falar, falar, até as coisas começarem a se organizar aqui por dentro e passarem a ter alguma coerência. A gente precisa falar até do que parece besteira, porque se essa coisa nos incomoda é porque ela tem algo pra resolver dentro de nós, às vezes eu me vejo preocupada com uma besteirinha coisa bem nada a ver, e aí quando decido falar sobre isso (ou escrever sobre isso), eu entendo que na verdade eu precisava parar pra refletir sobre o assunto, e descubro que entender cada dorzinha de nada que sinto, me ajuda a curar as feridas maiores que não consigo ignorar.

Você também começa a se dar conta de que seu círculo de amigos é menor do que há alguns anos, e de que é cada vez mais difícil vê-los e organizar horários por diferentes questões: trabalho, estudo, namorado(a) etc, é ai que a ficha caí, e você vê o quanto alguns eram verdadeiros amigos, outros não eram tão especiais depois de tudo. Você começa a perceber que algumas pessoas são egoístas e que, talvez, esses amigos que você acreditava serem próximos não são exatamente as melhores pessoas. Ri com mais vontade, mas chora com menos lágrimas e mais dor. Partem seu coração e você se pergunta como essa pessoa que amou tanto e te achou o maior infantil, pôde lhe fazer tanto mal. Parece que todos que você conhece já estão namorando há anos e alguns começam a se casar, e isso assusta!

Você também aprende que precisa se poupar! A vida já tem coisa demais para ficar enfiando ainda mais coisas nela, sempre que possível, ignorar as coisas que te irritam, evitar alimentar mais o sofrimento por coisas bobas, ainda mais se sabe que fazer alguma a respeito vai ser gatilho para ficar triste por outros longos dias. Tá tudo bem se esquivar de certos assuntos, pessoas e situações, a gente não precisa encarar nada de frente sem se sentir preparado pra isso, é aquele velho lance de energias que muitas vezes ouvimos dos mais velhos, você vai passar a querer recolher somente o tipo de energia que de alguma forma te acrescente algo.

Aprendi que a coisa mais importante do mundo é ter liberdade pra conversar com quem tá do nosso lado sobre nossas coisas, até as mais bobinhas. Porque nesse processo de falar, eu descobri que todos os meus amigos estão na crise dos 20 e poucos e eu não estou sozinha nessa tá todo mundo meio perdido, formando uma multidão nessa cidade esquisita que é o começo da vida adulta, afinal a gente cresceu rápido demais! Mas tá tudo bem, porque estamos todos juntos pra dividir as lágrimas e conquistas dessa nova viagem.

E que não as vezes não existe lugar mais desejado que a sua casa e suas horas de sono, essas que passam a ser tornar tão poucas e valiosas, aliás, o melhor programa para dar uma “esticada” é sempre a sua cama. Seu dia precisa de 36 horas e a sua lista de pendências só aumenta para o dia seguinte, mas você não abre mão de assistir ao seu seriado favorito. É, o futuro não cumpriu o combinado e você ainda não é uma pessoa milionária… mas você descobre que sucesso vai muito além do dinheiro e tem muito mais a ver com fazer aquilo que você realmente gosta e que te realiza, tem muita mais a ver com a paz e a leveza que você carrega na alma e no coração. Provavelmente você não está onde imaginou que estaria, dos vinte e poucos aos vinte e tantos muita coisa muda e ainda vai mudar. A única certeza que fica é que, apesar de dramática, esta é a melhor fase da sua vida!

Pelo menos, é nisso que penso sorrindo antes de dormir.

Vai ficar tudo bem, eu prometo.

 

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