Pensamentos Superação

E aquele adeus, não pude dar

É sempre difícil e doloroso dizer adeus. Não estamos acostumados a deixar ir. Queremos sempre ter tudo e todos por perto, o máximo de tempo possível, numa tentativa de ignorar o correr das horas, pois no fundo sabemos que não há maneira de escapar do adeus, seja breve ou tardio. Não tem como fugir da perda de um pedacinho nosso a cada adeus dito e sentido.

Mas, nenhuma dor é tão dolorosa quanto a do adeus não dito, aquele que nos é negado porque o tempo se adiantou a nós e nos arrancou um pedaço da vida sem aviso prévio. Sem notificação da chegada iminente da separação. Sem uma advertência de que algo estava se alastrando em nossa direção com o intuito de nos tirar uma parcela da alma.

O adeus não dito nos persegue tal qual nossa sombra, sempre nos lembrando de que nosso quebra-cabeça agora não tem mais todas as peças e que nossa paisagem, sempre vai ser incompleta a partir de então, pois não há peças de reposição para suprir a que falta. Esse adeus nos machuca, dói como ferida ardida após ser limpa. Nos recorda todos os dias do que nós perdemos, não apenas por tudo o que não foi realizado antes da separação, mas de tudo o que não vamos ter a partir de agora.

A partir de agora, não vamos mais assistir às Corridas de Fórmula 1 nos domingos de manhã. Não vamos mais discutir sobre economia como antes, só para eu tentar entender os números contra os quais mantive distância a vida toda porque não os compreendo. Não vamos mais escutar música sertaneja de raiz enquanto viajamos de carro, principalmente aquela que sempre vai me fazer chorar porque era destinada a mim. Não vamos mais nos deslumbrar com a paisagem de um lugar ao finalmente chegarmos ao destino da vez e em seguida corrermos para o próximo do itinerário, pois é preciso ver tudo enquanto estamos ali. Não vou mais receber olhares críticos ao ir a um rodízio de churrasco e causar prejuízo por comer pouco. Nem vou ver aquele sorriso de orgulho ao me apresentar aos amigos como doutora, como se o mérito fosse dividido entre nós.

Tem muita coisa na minha vida, que não vai mais acontecer porque você não está aqui. E eu lamento por tudo o que você não vai ver e não iremos compartilhar. Lamento demais.

Esse adeus entalado aqui na minha garganta, não está me impedindo de nada e ao mesmo tempo, mudou tudo. Não tem como ser a mesma pessoa quando uma parte da sua alma se foi sem que você tenha tido tempo de se preparar para isso. Mas, ninguém tá preparado para dizer adeus, ainda que a gente saiba que ele vai chegar uma hora qualquer das que ainda temos juntos. Essa função foi excluída do nosso manual de instruções e por isso, cada um sente à sua própria maneira e tenta se ajustar ao seu próprio tempo e jeito. Alguns são melhores nisso do que outros, mas não pressuponha que é fácil ou que o outro sente menos que você.

Estamos todos juntos aqui nessa vida, tentando não dizer adeus, enquanto ele se aproxima de nós a todo momento.

Para meu pai, que se foi há quatro anos e para quem não pude dizer adeus.

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