Pensamentos

Eu sou colorido

Eu não tenho nenhum problema interno em ser bissexual. Até porque eu parei de me importar com a opinião dos outros sobre mim. Não faz pouco tempo que eu comecei a sentir atração sexual por garotos e garotas. De modo tácito, acho que muitos começaram a notar isso. E isso já acontece há anos. Quando pequeno, eu gostava de brincar com bonecas das minhas primas. Claro que os pais e tios olhavam torto, pois a tradicional família brasileira jamais aceitaria ter laços com um parente gay. Mesmo criança, já doía ouvir comentários do tipo. Eu só não sabia que tudo ia piorar.

A escola é um ambiente essencial na vida de qualquer um, já que é lá que você ganha diversos conhecimentos e também começa a se relacionar com todo tipo de pessoa. Isso por um lado é bom, claro, mas pelo o outro lado pode ser bastante doloroso.
Me senti um bicho pequeno que tinha sido jogado no meio da savana africana quando cheguei na escola nova, na qual ainda estou, rodeado pelos mais diferentes animais.
Perigosos e selvagens, eu diria. Há um ditado que diz que sempre que você chega num lugar repleto de pessoas, se aplica a lei da selva. E é verdade. Não que isso signifique que sobreviva apenas os mais fortes. Não, isso não. Mas para sobreviver, você tem que lutar, sem medo da intimidação dos outros.

Apanhou covardemente? Conte.
Ouviu comentários maldosos? Fale.
Isso ou aquilo é ruim? Oponha-se.
É, eu sei. Nada disso é fácil.
Em um não tão belo dia de dois mil e quinze, eu estava sentado no meu lugar.

Pelo pouco que lembro, estava tendo aula de língua portuguesa e eu não estava prestando atenção. O meu único foco naquele dia era ler Harry Potter, e era isso que eu estava fazendo tranquilamente. Eu sei que estava errado em não ficar atento ao conteúdo da aula. Mas quem ligava?

Enquanto praticamente engolia as palavras do livro, meus ouvidos do nada ouviram alguns colegas falarem mal de mim. Naquele momento eu só quis sumir dali. Fugir de alguma forma que eu pudesse fingir que não tinha ouvido nada daquilo. Respirei fundo e voltei a ler, já não entendendo mais nada daquele mundo bruxo fantasioso.

Foi por isso que comecei a me retrair mais em relação às aulas práticas de educação física. Só de pensar em ter que entrar no mesmo banheiro com todos os outros garotos, que estariam apenas de cueca, eu já imaginava tudo. Eles iriam perceber que eu ficaria incomodado em estar ali e com certeza iriam falar de mim no momento em que eu saísse. É incrível como algumas pessoas têm o prazer de fazer brincadeiras escusas. O pior é que não percebem o quanto elas podem magoar o alvo da chacota. Mas essa falta de percepção não é o pior, não. O que dói mais é quando elas sabem que a vítima não está gostando da tal coisa, e mesmo assim continuam se divertindo, zombando. E eu? Querendo me encolher cada vez mais.

Mas sempre haverá o mas. Porque ainda tem meus pais. Eles não sabem da minha orientação sexual, acho. E se sabem, fingem não saber. Minha mãe almeja uma namorada pra mim. Meu pai sempre disse que os estudos vêm em primeiro lugar. Agradeci aos céus por isso. Eu sei que eu nunca fui o filho que ele esperava ter. Não sou daqueles que assiste futebol com o pai aos domingos ou muito menos aquele que conversa sobre sexo enquanto o trânsito está parado por causa do sinal vermelho. Nem vou ser. Não que seja tarde pra isso, mas eu não posso fazer algo estando desconfortável. Fingimento também não é a minha praia.

O que me conforta nisso tudo é saber que meus amigos me aceitam e não me julgam. Claro que foi difícil contar sobre, e como foi. Mas o alívio depois de ter contado foi quase fortificante. Parecia que um peso tinha sido tirado das minhas costas. É bom poder ser colorido com as minhas amigas. Sem aquelas caretas feias que os preconceituosos fazem.

Do futuro ninguém sabe, né? O meu pode ser casado com um homem ou uma mulher. O importante será a reciprocidade no amor, na alegria, na dor e em todo o resto. Bem clichê, não? Mas todo mundo gosta de um clichê, que eu sei, pois o clichê por vezes dá a garantia do felizes para sempre. Eu não quero essa alegria perpétua. A tristeza também é importante em nossas vidas tanto quanto a felicidade. Essas duas emoções estão entrelaçadas.

Se hoje alguém ainda acha que vai me abalar por não aceitar a minha sexualidade, dane-se. Meu coração está tranquilo e tá pouco se importando com as sombras tenebrosas das pessoas que querem escurecer todas as cores que me preenchem. E é assim que eu vou seguindo em frente, com rosa, laranja, roxo, amarelo, marrom e todas as outras cores que me fazem ser quem eu sou.

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