Diário de uma depressiva Grazi

Diário de uma depressiva

A decisão de escrever sobre essa dor foi difícil.
Me perguntei algumas vezes se era realmente o que eu queria, se gostaria de me expor dessa forma. Mas a resposta veio quando eu me lembrei que posso alcançar e abraçar pessoas ao dizer tudo o que se passa por aqui, dentro de mim, e mostrando que ninguém é perfeito. Que, na verdade, estamos muito longe disso. É também uma forma de colocar os fantasmas pra fora, conseguir e dar forças. Por isso, a resposta final, mesmo alertada de tantas formas de como essa exposição poderia me machucar, foi sim!

01 de Jan 2018

O dia começou ótimo! Muito sinceramente! Acordei e já eram quase meio-dia. Senti uma alívio enorme por acordar tarde, pois isso me daria menos tempo de ser eu. E isso é real. O fato de não gostar de acordar cedo, é porque o dia é longo demais para que eu possa lidar comigo. 

Mas não foi suficiente acordar tarde. A minha mente gritava que eu precisava sair de casa, ver o dia ensolarado, dar um mergulho no mar e ter a falsa sensação de lavar todas as impurezas do meu corpo. E assim eu o fiz. Cheguei em Ipanema, mas a praia estava abarrotada. Andei, andei e andei, mas nada de cadeiras ou barracas, porém já estava ensopada de suor, me sentindo mais suja do que nunca. Ali eu começava a me arrepender de ter saído de casa.

Como litoral carioca é bem vasto, perambulei até chegar em Copacabana. Outra vez abarrotada, mas com cadeiras e barracas disponíveis. Entrei no mar. A quem desconheça, o mar de Copa é cheio de algas. Areia e algas, com águas claras. Lutei contra mim mesma para ficar na água, porque, afinal de contas, era o que eu queria. Mas a minha mente gritava que tudo o que eu queria lavar, não tinha solução, que não havia água suficiente no planeta Terra para me purificar. Mas mesmo assim, continuei ali e sorri, como se tudo estivesse bem, como se eu fosse uma pessoa normal realizando um desejo normal de entrar no mar.

É engraçado como a nossa mente trabalha para nos sabotar, né?
Quando eu saí da água, fiquei estirada no sol, esperando que, como não era possível lavar a sujeira dos outros da minha alma, que o sol as torrasse, tostasse o meu cérebro, fritasse de verdade. Mas não foi o que aconteceu. Ao me secar ao sol, só conseguia sentir mais sujeira e comecei a enlouquecer para ir embora, em menos de duas horas.

Saí dali e fui comer. A medida que via pessoas de biquini e sunga sentadas nos barzinhos, sem a menor vergonha, comecei a me sentir pior, mais irritada. Como pode essas pessoas não se sentirem tão sujas e estarem tão bem em suas próprias peles nuas andando pela rua? Eu, honestamente, não conseguia entender. Comi. Com pressa, com raiva, com vontade de voltar pra casa e passar meia hora debaixo do chuveiro.

O curioso é que quando saí de casa, disse que só voltaria depois de ver o pôr do sol em Ipanema. Mas eu simplesmente não consegui aguentar. Minha mente insistia em me sabotar, em acabar com o bom humor que tive ao acordar.

Cheguei em casa já no pânico de tomar banho. Moro no térreo, mas tenho três leves degraus a subir. Não sei como, acabei caindo da subida da escada e machucando ainda mais meu, já fodido, quadril e perna direita. Entrei em casa e tropecei, novamente quase caindo, em um portão que separa nossos bichinhos da sala do corredor para os quartos. Finalmente entrei no quarto, tirei a roupa e separei para lavar imediatamente. Voltei correndo para o banheiro, numa tentativa de, ao me banhar em águas limpas, me livrar de mim. Da irritação, das dores, das lágrimas e das perguntas de por quê dá tudo errado? por quê eu estrago tudo sempre?.

Acho que nem preciso dizer que foi em vão, né?
Deitei na cama, liguei a TV, mas não conseguia me concentrar. Eu só queria a hora de dormir, para tomar meus remédios e fechar o dia. Mas tinha um problema: meu celular não vibrava. Insanamente, me senti menos amada. Senti pouco de mim. Senti que ninguém – ou alguém – não se importava comigo. Enquanto minha cabeça girava em tantas direções, como ninguém era capaz de me mandar uma mensagem perguntando se estava tudo bem?.

Nesse tempo todo, meu rosto demonstrava serenidade.
Até sorri.
Brinquei com minha gatinha.
Mas em silêncio, minha mente só gritava.

Finalmente, depois de algumas horas de ter tomado meus – quatro – remédios de dormir, já ter passado da uma da manhã e eu não ter conseguido dormir, me rendi a mais uma dose de um dos remédios. E assim, finalmente, apaguei e fugi de mim. Apenas até as 10 da manhã do dia 02.

Aguardo o que a minha mente vai gritar hoje.

Eu volto para contar,
Grazielle.

Leia o próximo aqui.

Comments

comments

You Might Also Like

No Comments

Comente