Contos e Crônicas

As lições que a vida nos dá

 

Daqui do quarto, eu consigo ouvir os ruídos dele catando as coisas em outros cômodos da nossa casa, não sei se dizer se estou exatamente triste por isso. Acho que é complicado descrever, porque posso até sentir uma pontinha de alívio por ele ir embora. A gente não foi um bom casal, não é justo com nenhum de nós dois continuar isso. É, nem sei mais definir esse “isso” entre a gente, ele não soube compreender, mas tudo bem também, não fiz tanta questão de ser compreendida.

Na verdade, pela primeira vez em muito tempo, sinto que finalmente fui ouvida e a sensação de leveza por ter sido sincera com meus sentimentos é tão boa que me esforço muito para não demonstrar toda a intensa felicidade que sinto neste momento. Veja bem, a gente pode não amar as pessoas, mas em respeito a tudo que a outra pessoa já fez por você, o mínimo que pode é manter-se impassível aos acontecimentos na frente dela. Dizer que não sinto mais nada já deve ter sido um golpe bastante forte e espero que ele consiga viver com isso.  

A verdade é que os filmes não dizem toda a verdade depois que aparece as letras curvilíneas e a mensagem que faz os corações explodirem de alegria: Felizes para sempre. As prioridades da vida de cada um muda e nem sempre um ou outro está disposto a abrir mão do que quer pelo bem de ambos, ou descobrir um jeito que funcione para os dois.

Pense em um navio com dois capitães. Os dois devem estar em sintonia e terem reuniões constantes para definir o melhor para todos. O “Felizes para sempre” não tem fórmula perfeita e nem todos os casais conseguem o equilíbrio entre os sonhos e caminhos a seguir juntos. E isso não significa que não há amor, pois para amar não precisa-se de muito, mas para conviver e reconhecer o outro como um ser com desejos e sonhos diferentes dos seus. Precisa-se de muito de amor, claro, mas precisa-se mais ainda de compreensão e compaixão com o outro.

A porta bate e desfaz meus devaneios, ele se foi. Sinto o peso do silêncio em casa, olho o relógio e penso em como a vida vira de cabeça para baixo em pouco tempo. Olho o café à minha frente e me perco em pensamentos de novo, fecho os olhos e agradeço mentalmente por todo amor que podemos aproveitar. Mas não só de amor que se vive a vida, relacionamento é uma gama muito maior de variáveis do que as histórias de amor nos contaram. Sem nenhum peso, sorrio para mim. Mais uma lição aprendida.

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