Contos e Crônicas

Me perdi no seu sorriso

Tinha um certo exagero nos meus olhos que se deixava escapar em palavras atropeladas. Ela sorria um riso lindo que nada tinha de especial, nem mágico, porém me encantava! Eu me afoguei naquele mar vasto que existia no fundo daqueles olhos. Uma alma cheia de dores, de histórias, cheia de vida. Tal qual eu…

Eu não queria estragar tudo, porém a vontade era de pôr as mãos no seu rosto e dizer olhando nos seus olhos que era a mulher mais linda que eu conhecia, e que além de linda era bonita, aquela junção perfeita da beleza interna-externa, coisa raríssima! Aquela atração por inteligência, por caráter, por nuances tão específicos que eram difíceis demais de se explicar. Aquele a mais que garantia uma certeza enorme dentro de mim de que valia a pena, de que era muito mais que um simples crush de sábado à noite no metrô.

Eu tinha aquela ansiedade incontrolável que me fazia tremer a perna incessantemente, pensando em quantos passos seriam necessários até eu ter a liberdade de dizer que estava completamente apaixonado por ela, sem que ela fugisse correndo de medo. O próprio Ted Mosby da vida real! Meus olhos vacilavam no vazio, entregando minha total falta de controle de tentar segurar tudo que tinha dentro de mim, expondo algo tão íntimo e sério, num mundo tão vazio e cruel, para uma total desconhecida. Era oferecer carinho para o cachorro assustado na rua, a cada passo para frente eram cinco para trás.

Escolhi algumas folhas em branco para esvaziar meu coração e escrevi quase um livro inteiro. Não pude nem acreditar em mim mesmo, me vendo no espelho de novo, depois de tantas marcas me sujeitando a sentar e fantasiar noites que nunca aconteceriam. A vontade era a abraçar por longas horas e se perder em meio ao extenso catálogo de filmes da Netflix. Digamos que certa intimidade que ninguém detém, aquela coisa estranha de acreditar no coração da pessoa sem nem o conhecer totalmente. As dores dessa vida são muito intensas, o suficiente para que a gente aprenda a tentar não as tornar longas demais.

Tentar descrever o indescritível aos seus olhos, para alguém qualquer num mundo de mentirosos. O que sobra é só uma carta rasgada, numa pilha de papeis na lixeira do quarto. No chão um pedaço de folha rebelde que voo para longe, com uma tinta azul borrada em uma péssima caligrafia. O ‘eu te amo’ vazio que hora foi ‘eu te adoro’ e hora foi ‘se cuida’. A gente se importa de verdade, com o coração aberto, mas se expressa mal pra caralho.

Na foto antiga aquele fragmento congelado do tempo, o registro atemporal de um momento que pode durar a eternidade. Olho bem para ela e sonho um pouco acordado sim, porém guardo comigo a felicidade em acreditar que a todo instante aquele seu sorriso reverbera por aí. Afinal amar é a liberdade de se deixar ir mesmo quando se quer ficar, querer o bem mesmo em face da insônia que se segue pelos dias afora

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