Diário de uma depressiva Grazi

Diário de uma depressiva 10

 

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07 de Fev 2018

 

Hoje acordei bem cedo.
Antes das 6h, pra ser mais exata. Mas me levantei às 6:47. Entrei no escritório para escrever este diário com a nossa nova bebê, a Mika, ronronando no meu colo. Tem forma mais deliciosa de começar o dia quando se acorda tão cedo? Pra mim, não. Já dito em outros diários que odeio acordar cedo, porque não sei o que fazer comigo durante o resto do dia, nessa fase fisioterapia e terapia, hoje não estou com esse problema, porque todo o dia está planejado.

Ontem, minha psicóloga me ligou, perguntando se podíamos adiantar nossa sessão de terapia de sexta para hoje (quarta). Meio que pega desprevenida, respondi que sim. Às 11:30 da manhã. Por isso acordei tão cedo. Ansiedade. Antecipação. Não porque tenha que pegar mil ônibus, só porque não queria ter que sofrer antes de uma semana. E é isso que tenho sentido a cada terapia: muita dor.

No tratamento de psicanálise, a psicóloga quase não fala (pelo menos a minha). Ela (ou ele) quer que você fale, para que possa compreender o que te faz estar ali, para depois começarem um tratamento, tipo um combate a tudo do que sua alma desnudou. Mas as poucas vezes que a minha psicóloga abriu a boca, bom, eu cheguei em casa chorando. Não apenas uma lágrima ou outra, mas soluçando de tanto chorar, com a sensação de que meu mundo estava ruindo e de que eu não sabia/sei absolutamente nada sobre mim. E cada descoberta, por mais “boba” que pareça, gera uma dor lá no âmago. Como eu convivo comigo há quase 25 anos (24 de fev tá aí pra me dar meu 1/4 de século) e não me conheço, nem sei o que e rege? O Rafa sempre diz que as minhas descobertas com a psicóloga não são novidade para ele, que ele consegue enxergar tudo o que ela diz, por estar de fora pra dentro da situação, entende?

Mas o real motivo de eu estar escrevendo hoje, é que ontem eu cheguei ao meu pico de exaustão da fisioterapia e, naquele momento, da vida em si. Depois de passar quase duas horas num trajeto que demoraria 40 minutos (carnaval, sambódromo e escolas de samba, eu odeio vocês), eu sentia ainda mais dor física. Quando cheguei em casa, o Rafa quis conversar (na verdade, eu quem forcei ele a conversar comigo) e foi aí que me bateu uma exaustão emocional gigante.

Eu tenho tanto medo de me parecer com as pessoas que eu abomino (dentro da minha família mesmo), que me sinto extremamente culpada quando isso acontece. E por mais que o Rafa diga que está tudo bem, que é só seguirmos em frente, apontando o que não nos faz bem em relação ao outro em nosso relacionamento, eu não consigo deixar de me sentir culpada por algum gene ruim que eu tenha. Apesar de ele dizer que estamos caminhando e que eu já estou muito melhor, porque estou me tratando, ainda me sinto culpada com qualquer coisa que saia de mim e o toque, mesmo que seja um leve arranhão.

Então ontem eu chorei e chorei.
Chorei pela culpa de ser eu, sabe? Chorei pelos erros que me lembrei de ter cometido no caminho, mesmo que em um passado distante, com pessoas que nem tenho tanto contato. Chorei por uma culpa que eu nem deveria ter, sabe? Eu sei que não fiz nada de ruim ou de má intenção, mas mesmo assim, acreditei e acredito até hoje na culpa que me puseram, mas que não é minha. Chorei porque senti a culpa de perder um amigo. Chorei porque, aparentemente, meu erro foi maior do que a cumplicidade, o carinho e a amizade que construímos. Chorei pela culpa de, mesmo me desculpando e assumindo meu erro, me sentir desprezada. Chorei porque me senti culpada pela minha mãe ter que medir o que fala comigo, mesmo que seja para o meu bem, para que eu não tenha mais carga emocional do que já carrego. Mas tudo isso só me traz mais culpa.

Chorei porque não consigo me expressar com palavras ditas, só escritas.
Chorei porque não consigo explicar para as pessoas o que eu sinto e precisei fazer um diário online para conseguir me  fazer ser entendida e ajudar as pessoas que lidam comigo, me entenderem. Poxa, eu preciso enviar os links dos diários pro Rafa, para que ele consiga entender um pouco do que se passa na minha mente. Isso é frustrante, é exaustivo, é culposo.

No domingo, fizemos um open house, porque o Rafa e alguns amigos amam futebol americano.
Me entreguei ao evento como pude. Fiz parte da comida, arrumei parte da louça, tentei me integrar em algumas conversas, mas eu simplesmente não conseguia fazer isso com todos os grupos de amigos do Rafa. E isso é frustrante. Me sinto culpada, sinto que o problema sou eu. Não consigo me sentir confortável com algumas pessoas, apesar de sentir uma energia tão boa delas. Não consigo encontrar um caminho para entrar em tal grupo de amigos e isso me fecha, me afasta. Foi legal fazer um evento na minha casa e ficar até as 3 da manhã acordada e arrumando tudo? Foi. Mas também foi difícil. Talvez um passo de cada vez e eu encontre um equilíbrio.

Sei que no fim de tanto choro, tive que tomar tramal (fisioterapeutas que me desculpem) e remédio pra ansiedade que o meu psiquiatra tinha vetado (foi mal também), mas eu consegui dormir e acordar com uma culpa que ficou adormecida e menos dor.

Grazielle

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