Contos e Crônicas Não categorizado Relacionamento

Sobre amores, desilusões e maturidade

(Este texto é baseado em uma história real)

Quando Giullia tinha seus 17 anos, se apaixonou por Pedro. Ele era amigo de uma das melhores amigas dela. Alto, magro, com cabelos ruivos e levemente ondulados. Era o perfeito estereótipo de menino “certinho”: estudioso, dedicado, religioso. Tudo que atraía a certinha Giullia.

Já havia se interessado quando a amiga dissera que ele era um rapaz inteligente, até meio nerd (o que ela realmente adorava) é super dedicado a tudo o que se propunha a fazer. Ao vê-lo pessoalmente pela primeira vez, tendo trocado algumas poucas palavras com o rapaz, pode constatar o quanto era bonito – por dentro e por fora, achava – e, com isso, sentiu o coração dar uma ligeira acelerada, não conseguindo conter um sorriso bobo. Estava encantada.

Naquele dia, fora andando toda sorridente até sua casa e quando, posteriormente, por meio da amiga, descobrira que ele morava próximo a ela, sentiu-se sortuda pela possibilidade de vê-lo pelas ruas do bairro, mas isso nunca aconteceu.

Não conseguia encontrá-lo muito e o pouco que conversavam era pela internet, de uma maneira um tanto fria, para ela. A internet jamais poderia substituir as trocas de olhares, os gestos de carinho, o calor humano. Mas, era o que tinha pra ocasião, não podia reclamar. Era melhor alguma coisa do que coisa alguma.

Quando parava pra pensar que estava gostando de um menino, o qual poderia contar nos dedos quantas vezes havia visto, achava a situação um tanto quanto bizarra. Porém, o que é normal pro coração? No fundo, pouco importava a razão. Era a emoção que ditava as regras do jogo.

Só sonhava com os abraços que nunca dera, com os beijos que nunca ganhara, com os passeios que nunca fizera. Isso não a incomodava tanto no início, porque achava que eram pensamentos normais de uma pessoa apaixonada. Contudo, com o passar do tempo, foi temendo que aquilo não se concretizasse e isso fez seu peito doer.

Tinha esperança que ele a olharia de uma maneira diferente, como ela o olhava, mas, ao mesmo tempo, tinha vergonha de si mesma e medo de que ele não fosse recíproco. Vivia se perguntando se era boa o suficiente pra ele. Que chances ela teria com aquele garoto?

Ele nunca a olhara desse jeito. Para Pedro, Giullia era nada mais, nada menos que “a amiga da Letícia”. E por mais que Giullia fosse fechada, sabia que aquilo estava evidente, em letras garrafais em sua testa. “Pedro, sou apaixonada por você”. Todas as vezes em que se encontraram, ela mal disfarçava: olhava Pedro com total admiração, suspirando sempre que o garoto passava, ao ponto que este, desinteressado demais, jamais notara.

Giullia passava noites e mais noites stalkeando o rapaz no facebook, e só conseguia repetir para si mesma o quanto ele era perfeito pra ela. Por que diabos ele nunca a notara?

Até que um dia, ele a notou. Mas era tarde demais, o estrago já estava feito.

Era aniversário de Giullia e ela, decidindo dar um break de garotos em sua cabeça, decidiu ir a um restaurante com suas amigas, no maior estilo “noite das garotas”. O que não esperava é que encontraria o dono de seus pensamentos lá e, de brinde, com a nova namorada.

Nunca vira tantos beijos, diretamente não direcionados a ela, numa só noite, principalmente em um aniversário. A cada beijo trocado, podia ouvir um pedaço do coração se quebrando, mas precisava manter as aparências. As amigas, cientes da situação, perguntaram se ela estava bem e se não gostaria de ir para outro lugar. Giullia apenas negou, forçando um sorriso. “Estou aqui para me divertir com as minhas amigas, não é? Ninguém vai estragar isso”.

Pedro observou Giullia de longe a noite toda e sentiu-se estranho. Não conseguia não olhar, a menina estava linda. Por um breve momento, seus olhares se cruzaram. Nem teve tempo de pensar em muita coisa, pois logo ela voltou a atenção ao a sua frente. Sentiu-se culpado quando sua namorada puxou-o para um novo beijo, depois de tê-lo chamado várias vezes, sem obter resposta.

Assim que Giullia colocou os pés dentro de casa, correu para o quarto como um foguete e lá se trancou. Se atirou na cama, enfiou a cara no travesseiro e chorou. Chorou até não ter mais lágrimas. Sua mãe, preocupada, bateu à porta, perguntando se precisava de algo. Ela disse que não e agradeceu, fungando. Sentou-se na cama e repassou toda a noite em sua cabeça. Por que estava chorando se Pedro nem fazia ideia de que ela gostava dele? Era uma grande perda de tempo.

Para ela, uma menina tão tímida, se apaixonar fora uma grande tortura, pois nunca tivera coragem de expor seus sentimentos, ainda mais quando se tratava de amor. Mas amor não se controla, não se prende, apenas se sente.

O rapaz, por outro lado, jogou-se na cama assim que chegou em sua casa e ficou pensando por minutos que lhe pareceram horas. Mandou uma mensagem para Letícia, sendo respondido secamente, algo que raramente a amiga fazia. Logo a troca de olhares com Giullia voltou à sua mente. Ela parecia desconfortável, mas por quê? Nas poucas vezes em que a encontrara, estava sempre de bom humor. Resolveu não pensar mais naquilo porque obviamente era bobagem.

Depois daquela ocasião,ela decidiu que esqueceria o garoto. Não mais se viram, nem por acaso, nem por meio de Letícia, que se mudara no fim do ano para outra cidade. E não há melhor remédio para esquecimento do que o tempo. Ele passou e trouxe mudanças nas vidas de ambos.

Pedro se tornou militar, mudou de cidade, começou a correr, raspou os cabelos, terminou o namoro, teve relacionamentos nada sérios. Giullia, por sua vez, foi para a faculdade, arrumou um namorado, tingiu os cabelos, foi às festas, curtiu quando ficou solteira. Os dois cresceram, amadureceram e, enfim, viveram.

Em um desses dias, passados anos desde o episódio no aniversário, ela acabou revendo-o. Andava em sua direção, mesmo que não estivesse indo até ela, falando ao telefone. Giullia demorou para reconhecê-lo sem as longas madeixas cor de fogo, ficando surpresa quando constatou que era Pedro de fato. Estava forte, mais alto, ousaria dizer que até mais bonito, mas já não era aquele doce Pedro por quem tinha se apaixonado. Agora, fisicamente, o homem era uma pessoa como qualquer outra naquela calçada.

Mas, ora, ela também havia mudado. Os longos cabelos negros agora tinham um tom de rosa e um corte da moda. O rosto, antes sempre “limpo”, estava com maquiagem. Nos pés, saltos no lugar dos velhos tênis AllStar. Giullia sorriu com nostalgia, em razão da onda de pensamentos e continuou andando, passando pelo rapaz que nem ao menos viu seu rosto, mas que se virou, obviamente sem que ela notasse, quando a mesma passou. Teve um sentimento parecido com um déjà vu, mas balançou a cabeça em negativa. Não acreditava nesse tipo de coisa. Fora o cabelo cor de rosa que lhe chamara atenção, tinha certeza. Continuou a conversa que estava tendo, andando apressado até seu destino, a casa dos pais, pois era fim de semana e decidiu aproveitar para visitá-los.

O tempo ensinou à Giullia que era necessário ter coragem de expor seus sentimentos, senão viveria sempre idealizando pessoas. Não tivera Pedro, mas conhecera tantas outras pessoas legais que achava que o menino foi a melhor coisa que nunca teve. Poderia ter dado certo, mas poderia ter dado errado. O tempo lhe trouxe maturidade e sabedoria, o que a fez ser mais pé no chão e menos sonhadora. Mas ela se apaixonou aos 17 anos. E foi assim que descobriu que amar, às vezes, dói.

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