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Bruna Borges

Almas cobertas e corpos desnudos

“Loving can hurt sometimes, but it’s the only thing that I know and when it gets hard. You know it can get hard sometimes it is the only thing that makes us feel alive…”

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Chega a ser bizarro ver duas pessoas que não sabem nada mais que o nome um do outro, desempenhando papeis tão íntimos, onde os protagonistas da situação deveriam, no mínimo, terem alcançado além do que os olhos são capazes de entenderem. Chega a ser ridículo, ver olhos pousados demoradamente sobre um corpo despido, enquanto a alma permanece coberta. É estranho estar nu, quando não se é capaz de despir a alma. Muito se lê sobre a ausência de conexões mentais, e a superficialidade das ligações físicas. Será que somos apenas mais um número destes clichês modernos?

Eu tenho pressa pelos seus beijos, quase fico calma quando pouso minha cabeça no seu peito, recebo um cafuné e fico rindo de alguma besteira por parcelas de segundo. A risada é verdadeira e o motivo dela faz sentido para nós. Perdão por juntar eu e você em um pronome único. Aquela conversa, um pouco mais aprofundada sobre um assunto qualquer causou um arrepio gostoso, eu quase acredito que é você, mas no meu íntimo algo me segura e fixa meus pés e todos os pensamentos românticos que um dia eu poderia ter. Eu fico trêmula quando você reveza sua mão direita entre o câmbio do carro e a minha coxa esquerda, para depois descer as escadas do seu prédio em silêncio, e torcer para não ser notada por ninguém. Dia ou outro sinto falta do convívio com alguém além de mim, pois no final de tudo eu continuo sozinha, e esse tipo de relacionamento superficial não me interessa, e nunca interessou.

A questão toda gira em torno de não querer estar com você, estar em um momento em que a minha presença basta, não tolero pequenos atos falhos, não preciso ocupar meus pensamentos com ninguém além de mim. Eu afirmo que não é egoísmo, é apenas o meu medo de deixar alguém entrar e ser molesto com superficialidades diferentes das minhas.  Eu sinto falta, eu tenho carências insolúveis, eu não tenho cartão ilimitado, eu não posso comer uma panela de brigadeiro e ligar para a minha mãe; chorando não parece uma solução sensata. A carência apresenta-se, o corpo reclama. Digito o seu nome, envio uma mensagem, sem pontuação, eu realmente tenho pressa de estar com você. Eu não quero ver o seu rosto quando eu acordo, mas estar sempre sozinha e acreditando que isto é uma opção, em determinadas épocas do mês fica notório que é solidão e quando passa, porque você bem sabe que passa, perde a graça, eu vejo que foi apenas pirraça e a palhaça fui eu.

É uma bipolaridade risível, quase chegar ser disparato usar termos médicos, para falar da minha falta do que fazer, e destes jogos de não saber o que quer, quando bem na verdade eu não sei nem ao menos o que não quero. Acordo com vontade de café na cama, e mãos entrelaçadas, mas quando lembro que vou acordar com a cara amassada e nos primeiros meses irei acordar minutos mais cedo, para escovar os dentes sem pasta de dente para você não desconfiar, escovar o cabelo antes de você abrir os olhos, eu sinto vontade de esquecer tudo e continuar com as juras de amor de 12 horas. Tento me convencer que isto basta.

Até que ponto não amar alguém com ideais românticos é algo bom? Não seria o amor que move o mundo?  Acreditar em alguém e esperar que os dias dessa pessoa sejam sublimes, ficar realizado com as vitórias de outra pessoa, ter alguém logo ali torcendo por ti e ajudando a enfrentar as adversidades da semana e de uma vida toda, aliás por que não uma vida inteira?

Caetano, Cerveja Gelada e Barba Mal Feita

“Well, show me the way to the next whiskey bar. Oh, don’t ask why…”

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Nove reais a cerveja, caipirinha em dobro até a meia noite. A dúvida sobre a escolha do sapato aumentava, enquanto as voltas no relógio aceleravam. Amante de sapatos altos, e aquela arrebitada discreta que o uso deles proporciona pela sua bunda, -falsa impressão- de uma bunda sarada, já que o tempo para frequentar a academia foi perdido depois que resolveu aprender francês. Apaixonada pelo conforto que apenas os tênis surrados, atualmente aceitos pela sociedade e blogueiras no geral, podem conferir aos seus pés cansados, provenientes de uma semana turbulenta com prazos perdidos, crises de ansiedade no banheiro, e –o que jamais admitira- descontrole e lágrimas doídas no chão da cozinha.

Optou pelo salto, pela dose de confiança extra que eles lhe traziam. Quando chegou ao bar a Cinderela tinha ido embora, levando consigo a promoção de double drink. Ambiente escuro, sorrisos sinceros, demasiadamente sinceros para alguém que estava sóbria. Celular com pouca bateria e a fatura do cartão já tinha sido fechada, levando com ele o limite e os sonhos de escapar da realidade. Escapismos utópicos. Alguns rapazes bonitos, mas tinha um cara. Ah sempre tem um cara, no caso dela esse cara sempre vinha acompanhado de uma barba. Um sorriso que enganaria sua mãe passando-se por bom moço. Ele e seu sorriso bagunçariam seu psicológico em menos de três semanas. Aquela carinha que vai destruir seu psicológico e aumentar as suas visitas no terapeuta e a conta do bar. Aquele semblante digno dos caras cafajestes de filmes americanos. Em três passos, ela já imaginou os almoços de domingo, as crianças correndo em volta da mesa, a sogra gritando, pedindo ajuda para trazer a sobremesa. Em três passos, o futuro já tinha sido detalhadamente descrito em seu imaginário, e não posso nem descrever o que ela sonhou para aquela barba.

O som era agradável, parece mentira, mas ela jura que tocava Caetano, poderia morar naqueles 20 m2 mal iluminados. O dinheiro da conta de luz estava ali dando bobeira, a cerveja embora cara permanecesse gelada. Gelada para combinar com suas mãos de defunto como já escutou por aí, gelada tal qual seu coração e o sorvete que insiste em tomar mesmo quando os dias de inverno se aproximam. Quem precisa de energia elétrica quando se tem um cara de barba e algumas velas? Ela sorria, balançava a cabeça, ensaiava cirandas, e imaginava o perigo daquela barba roçando seu pescoço. Ela queria muito mais, ele tinha cara de ser de escorpião, ela era canceriana, mas que mal há nisso, se ambos são signos da água e embora poucos saibam, adoram uma dose de sacanagem bem medida. Ela saberia lidar com isso desde que deixasse suas expectativas trancadas na terceira gaveta do armário, junto de suas calcinhas beges. A indecisão do sapato e sobre gastar ou não o dinheiro da conta de luz, usaram mais tempo que o necessário, e nesse imaginário perdido, o horário de fechamento do barzinho chegou. O som acaba e as luzes acendem.

Os sorrisos sinceros eram apenas efeito da promoção que perderá. As pessoas não são interessantes, ou ela que está mais preocupada com as contas, o trabalho, e um nódulo no seio esquerdo. Essa fase de forçar sorrisos para fingir felicidade, em um feed monocromático do Instagram, não apetecem mais a ela.

Há outros bares, outros caras, e haverá outros sons e ambientes com Caetano. Por hoje o dinheiro da conta de luz estava salvo, e a sua sanidade mental também.

Precedente da Aurora

“A página vira, o são, delira, então a gente pira. E no meio disso tudo tamo tipo… Passarinhos soltos a voar dispostos a achar um ninho, nem que seja no peito um do outro…”

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Eu acordo; assustada. Testemunho suas costas sendo tocadas pelos primeiros raios de sol. Baixinho, agradeço por ter você ao meu lado, por ser inteiramente sua, deixas-te eu fazer parte dos seus dias e contemplar as auroras ao seu lado. Eu me belisco para ver se é um sonho, tal qual aquele desenho antigo, que fixam em nosso imaginário. Sinto uma ardência repentina, causado pela autoflagelação, desta forma eu sei que é real. Mania besta de agradecer a dor, pois assim tenho a certeza que estou viva.

Esfrego os olhos com uma preguiça honesta, quero parar o tempo e escutar a sua respiração junto com o som que os pássaros emitem, o despertador vai tocar em breve, logo você vai abrir os olhos, selar minha boca com um beijo sonolento. Você vai colocar minha pantufa e sair porta a fora, procurando por café na cozinha, vai encontrar (sempre no mesmo lugar).

Adquiri uma mania de deixar as coisas no mesmo lugar, para facilitar sua procura quando esquece os óculos na mesinha ao lado da cama. Você vai franzir a testa e insistir que eu deveria parar de usar essas cafeteiras com cápsulas e explicar o mal que elas fazem ao meio ambiente e o quão ruim eu sou por contribuir com o acúmulo de lixo. Vai ver minha cara tristonha e me puxar para um abraço. Eu ganho outro beijo, – agora acordado-.

A cena se repete dentro da minha cabeça por horas, madrugadas, até você voltar e eu repetir minha senda; acordar minutos mais cedo apenas pelo bel prazer de escutar sua respiração. A luz varia conforme o dia, somos amantes da luz natural e da naturalidade como as coisas fluem. Eu poderia escutar você falar sobre qualquer coisa, deveras falar coisas interessantes, mas eu só consigo ver sua boca se mexer e entre uma palavra e outra eu lhe roubo um beijo. Faço pirraça: “fica mais um pouco”?

Eu sou sua. Mas não faz o que quiseres de mim, eu tenho meus horários, meus compromissos, meus medos estão aqui trancados, ao seu lado me sinto protegida e qualquer coisa que me aflige é esquecida com o seu olhar, no seu abraço eu sei que as coisas vão ficar bem, com as suas palavras de incentivo eu sei que sou forte e que consigo fazer qualquer coisa.

Eu sou sua, mas não diligencie-se em me moldar ao seu jeito, da mesma forma que não espero que você mude um milímetro por mim. Eu sei o quanto o seu cabelo é bagunçado, mas é nele que fixo meus olhos quando acordo, eu não suportaria um cabelo estrategicamente moldado com mouses, não suportaria ele ser raspado na máquina 3, eu gosto do seu cabelo (estrategicamente) bagunçado e poder puxar eles,  ver a sua respiração falhar. Gosto do jeito que a sua barba coça, gosto da alergia que ela me causa em lugares antes só conhecidos pela minha ginecologista e depiladora.

Gosto como minha voz estremece como o rosto cora, como a pele arrepia. Gosto como as coisas fluem, como o papo rende como o beijo sincroniza. Entre quartas de manhã, despertador gritando, café na cama aos domingos, sua testa franzida e o beijo com gosto de café; no final do dia é com você que eu quero estar. No final do texto me pego pensando que de todos os atos que eu amo, a ação de te amar é o que aquece o coração nesses dias cheio de conversas mesquinhas.

VAI FICAR TUDO BEM

“Não me aponte o dedo, só eu sei o meu valor, ninguém me mete medo, eu já conheço a dor.”

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Procurei no Google maneiras de praticar o suicídio, acho que não está mais na moda, bulimia não está na moda, depressão também não. Só acho dicas de como usar tênis branco, dietas paleolíticas e sobre como o mundo está ao contrário e ninguém reparou, é Nando, a vida imita a arte vez ou outra. Galera desculpa o egoísmo, mas minha vida já está tão ferrada que não tenho como me preocupar com o resto do povo.

Acho que me jogar pela sacada seria uma maneira eficaz, porém moro no segundo andar, não seria poético como a música de Clarice, até porquê não haveria outro corpo junto ao meu. Outro detalhe é que eu moro sozinha, só achariam meu corpo sete dias após minha alma ser liberta deste corpo que ela habita,  Poderia tomar doses de remédios, porém depois de crises hipocondríacas os remédios são escondidos, minha liberdade é com o Omeprazol e ainda assim há um controle rígido.

Esta noite eu sonhei que tinha morrido, mas não foi calmo e não lembro se choravam. Acho que quem chorava era eu, por não ter tido força e coragem de continuar. Acho que quem prática o suicídio não tem intenção de acabar com a sua vida, e sim com a sua dor. Não gente não há nada errado, não levei fora de boy, não to morrendo, não aconteceu nada, mas é essa inércia que me consome. Falaram para eu procurar Deus, sair de casa, apelar para ervas medicinais. Eu já apelei pra Deus, para ervas medicinais, já tentei sair de casa, já vivi como um zumbi tomando remédios tarjas pretas que faziam ver o Slender antes de dormir.

Eu só não quero essa vida para mim, eu só preciso de um pouco de conforto e alguém que entenda o que está acontecendo por aqui. Minha mãe fala que eu não estou bem comigo mesma. Mamãe, nem sempre o problema é com a gente, não quero e não posso usar você como desculpa nessa hora também. Parece que algumas pessoas não merecem esse bem estar proveniente da felicidade. Vez ou outra acho que estou tão ocupada vendo o copo meio vazio, que não percebo que a realidade é que ele está bem cheio, mas eu insisto naqueles poucos pingos para completar ele. Afinal já nascemos completos o que queremos é atitudes que nos transbordem, não quero completar ninguém também. Quero uma pessoa completa para assim, nós dois juntarmos nossas almas completas e transbordar vida a fora

Dias tristes são normais, não seria o ideal, mas é o comum, entretanto o que anda acontecendo por aqui nem chocolate, beijos que fazem o vidro embaçar ou compras resolveriam. Poderia fugir para Paris, sofrer por lá seria algo menos tedioso, mas de qualquer forma fugir nunca é uma opção. O que eu preciso é apoio não gritos, alguém que não me obrigue a sair da cama, ou que duvide da minha amizade por não ter vontade de conhecer a baladinha nova da cidade. O que eu preciso é um abraço, um querer bem, ou apenas que alguém fale que as coisas vão ficar bem. Porque elas, as coisas sempre ficam bem, não é mesmo?

TRAGICOMÉDIA ANUNCIADA

“Você me chamou pra dançar aquele dia, mas eu nunca sei rodar, cada vez que eu girava parecia que a minha perna sucumbia de agonia. Em cada passo que eu dava nessa dança ia perdendo a esperança…”

tragicomédia

Estamos em uma disputa de egos. Em um jogo de desinteresse, ganha quem permanecer ausente por mais dias, quem se ausentar do primeiro oi da semana, ou alguma piadinha infame sobre a nova foto do outro. Eu sempre ganho. Ganho noites mal dormidas, dores no estômago, uma sudorese inexplicável, faz repensar se meu antitranspirante realmente funciona. Mas eu não envio bom dia, não pergunto sobre sua semana. Eu desejo baixinho que sua semana seja feliz, que seu dia seja iluminado e me pergunto o que faz ou que horas acordou, mas eu jamais permitiria que percebesse que é o dono do meu primeiro e último pensamento de todos os dias, das últimas semanas nos últimos meses. Leia Mais