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Deborah Sequeira

Contos e Crônicas

Seu desamor doeu

 
Na verdade, 
não acho que mudaria alguma coisa. Quer dizer, mesmo que eu tivesse ensaiado, imaginado e previsto tudo antes do tempo, o nosso ‘adeus’ ainda seria doloroso para mim. Perder você jamais seria algo fácil. Perder você é a coisa mais difícil pela qual eu já tive que passar, meu bem.

 E você sabe, eu já passei por um bocado de coisas difíceis antes de você partir.

Você era aquela corda que me segurava pela cintura quando o chão desabava, quando meus pés não alcançavam nenhum apoio. Mas agora, agora você é mesmo um enorme buraco sendo escavado mais fundo a cada dia que passa, apenas. Você podia ter pelo menos piscado duas vezes, feito um sinal com as mãos, ou não ter me beijando gentilmente da última vez, como se eu ainda fosse a coisa mais preciosa da sua vida.

Mas não, você só desamarrou a corda, sem mais nem menos, sem aviso prévio, sem uma carta simplória avisando que o amor acabou. Você só
 se desinteressou pelas minhas letras, pelos meus olhos, pelas covinhas que eu tenho na bochecha. Você só desamou tudo muito rápido, sem demonstrar. Me deixando ser a paranóica, maluca, obcecada. Me deixou perguntar mil vezes, e nenhuma vez sequer, me deu a resposta certa.

Eu iria embora, você sabe disso. Eu teria tentado uma amnésia com todos os remédios sem prescrição médica na farmácia. Teria me mudado para Indonésia, pintado o cabelo de roxo, arranjando um convento que me aceitasse de mala e cuia. Você sabe, eu teria feito de tudo para desamar de você antes, já que eu sempre te amei muito mais. Mas enfim, no final de todas as contas, as despesas seriam as mesmas. Ainda me restaria um copo cheio de amargura e saudades de você, não importaria o mês do ano. Na hora que tu desamasse de vez, eu me quebraria, de qualquer forma.

Contos e Crônicas

Ela é pesadelo

Eu juro que eu tava aqui sentado na minha, tentando me entreter com os noivos dançando sua primeira valsa.
Mas é foda, parceiro.

É foda quando uma mulher daquelas desce a escadaria segurando o vestido vermelho com a ponta dos dedos. Quase todos os olhares se fixaram nela, descendo de forma majestosa, quase que carregada por uma nuvem. Ela parecia flutuar.

Me forcei a beber um grande gole do meu uísque. Deixei que o líquido me queimasse inteiro, porque aí, só talvez… eu conseguisse não olhar pra ela.
Mas foi inevitável.

Esqueci que ela era melhor amiga da noiva. Esqueci da noite fatídica em que eu estava com o meu melhor amigo em um bar e a conheci. Esqueci que ela era tão linda assim.
Bebi outro gole do uísque.

Ela foi para pista de dança, o que quebrou o meu coração. Enquanto eu, jogado na cadeira em uma mesa decorada, me perdia em olhares vazios. Ela estava sorrindo e obviamente acompanhada. Ela estava na sua companhia.
E eu não sei você reparou, mas era ela quem estava iluminando o lugar inteiro. A banda virou som ambiente depois que ela começou a gargalhar. Não tinha como não reparar. Não só porque ela tinha aquela beleza única e incomparável, mas também porque ela tinha aquela atitude de mulher decidida, bem resolvida e de bem com a vida.
Ela é só dela, mas por alguns segundos, ela estava sendo sua.

Mas você? Você não parecia verdadeiramente notar o quão feliz ela realmente estava. Não pareceu notar como ela ficou linda suada, com o cabelo preso de tanto dançar. Você parecia estar com uma mulher bonita em uma festa. Mas não era só isso.

Você estava com as mãos na cintura do amor da minha vida.

E da sua vida. E da vida de muitos outros.
E foi por isso, parceiro, que eu bebi outro gole.
Porque ela usa aqueles olhos brilhantes como uma arma secreta, e se ela mirar em você… Ah, você vira alvo certo. Não tem mais escape. Mas também, quem iria querer escapar daquela obra de arte? Porque ela é uma. Foi esculpida pelas mãos de um artista.

E você estava logo ali, perto daquelas lábios tão bem desenhados. E eu estava aqui, largado e solitário pensando no quão sortudo você seria se a beijasse ali no meio da pista. O quão sortudo você estava sendo de poder ouvi-la falar sobre todas as maluquices e sonhos que ela quer pra vida dela. Sortudo de levá-la pra fora dali, deitar-se com ela e gravar suas curvas, deitada na sua cama. Notar as ruguinhas que se formam perto dos olhos quando ela sorri pra você. Sortudo de acordar com ela no dia seguinte e poder observá-la respirando calmamente. Seria você o sortudo a vê-la jogar o cabelo e morder o lábio pra você.

Bebi outro gole. Resolvi me levantar. Fui atrás dela e ela me olhou tão furiosa, que eu simplesmente só te puxei pelo braço. “É, parceiro. Não deixe de se apaixonar por ela, mesmo que ela esteja brava. Mas não só isso, não deixe-a ser somente a mulher que parou o seu trânsito. Faça dela o seu sonho.”
Fui embora.

Porque para mim, que a deixei ir sem nem ver que ela ia, ela é pesadelo.

Contos e Crônicas Superação

Eu deixei de conhecer você

Eu aposto que você está largado no seu sofá de dois lugares enquanto assiste algum filme de aventura na televisão. Deve estar cansado da semana de trabalho, dos chopps com os amigos da faculdade e até mesmo, cansado de atender o telefone sempre que aquela ruiva bonita te liga.
Você sempre foi meio cansado assim. Enjoava fácil demais de todas as coisas da sua vida, largava os planos no meio, mudava seus objetivos a cada cinco minutos e seus romances então, vish.. nunca duraram muito tempo.

Desde que eu vim conhecer o mundo, eu deixei de conhecer você. Tudo que eu lia eram informações banais nas redes sociais. Vi quando você comprou um labrador marrom e colocou o nome de Toddy. Vi quando você viajou com a família pra casa dos seus avós maternos e quando foi curtir nas boates por noites seguidas durante meses. Eu não me choquei quando notei que você mudava de trabalho como quem mudava de roupa, até ria. Sentia falta. Via você trocar de carro, de estilo, de corte de cabelo. Vi seu corpo sendo coberto por tatuagens novas. Eu não me choquei.
O choque veio mesmo quando você se estabilizou. Vi que você comprou um apartamento em frente à praia. Que o Toddy cresceu bastante e não é mais filhotinho, e que mesmo assim, ele continua em todas as suas fotos. Vi que achou o trabalho dos sonhos e não para de falar sobre ele. Usa até terno e gravata. Largou a bermuda e o chinelo.

O choque veio mesmo quando eu notei que as mulheres sumiram. Você só aparecia com uma e o nome dela era lindo igual à ela, mas eu nem ouso em falar. Percebi que ela aparecia abraçada com a sua mãe, se dava bem com o seu irmão e até mesmo, se intitulava “mãe do toddy” no Instagram.

Foi quando minhas viagens por aqui ficaram sem graça. Parei em Veneza, me estabilizei também. Comecei a notar os casais de mãos dadas nas ruas e voltava cada vez mais solitária pro quarto de hotel com minha única taça de vinho. Comecei a sentir falta de casa, do seu cheiro, do nosso quarto desarrumado na casa dos meus pais. Senti falta de você dizendo que ia me pedir em casamento bem aqui, em Veneza, no amanhecer.

Mas foi a ruiva quem ganhou a aliança.
Esbarrei com seus amigos anteontem, eles que me reconheceram. Vi que os olhos da sua melhor amiga se encheram de lágrimas depois de me abraçar – pelo visto, não era só eu quem sentia falta deles. Eles me contaram que sua mãe fala de mim sempre que pode, mas que você nem toca no meu nome.

Me contaram que o casamento é daqui uma semana e que eles vão ser padrinhos. Eu sorri, mas por dentro, até agora não sei bem o que ando sentindo. Quando eu peguei aquele avião e você me deu um último beijo ao me ver decolar para longe de você, eu achei que você ia esperar. Sei lá porquê diabos, já que você nunca foi muito paciente para nada. Achei que eu seria a única mulher da qual você nunca iria se cansar.
Pensei que eu ia vir estudar arte, que a gente ia se falar pelo Skype e que você ia ser o primeiro na fila do aeroporto quando eu chegasse. Mas depois de um mês, nem minhas ligações você atendeu mais. Seus amigos falaram que você ficou com raiva de mim, porque era mais fácil do que sentir saudades.

E eu até que tô tentando sentir raiva de você, mas não consigo. Só de te imaginar vestido de pé no altar me dá vontade de pegar o primeiro voo de volta pros seus braços.

Mas não vou. Quando eu parti, resolvi te deixar. Meu amor por você ainda é o mesmo de três anos atrás, mas eu cresci, você cresceu. Você parou de cansar do resto, e resolveu cansar só de mim. E por mais que me doa a alma pensar em você agora, eu prometo continuar nesse quarto de hotel bebendo meu vinho. Amar é isso, né? Deixar ir embora mesmo que você queira impedir de ir. Você fez isso comigo, e agora é minha vez.

A ruiva vai ser a noiva mais linda que você já viu.
Mas sou eu quem vai te amar para sempre,
Até.