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Emanoel Freire

Contos e Crônicas

EU ME AMO EM PRIMEIRO LUGAR

Escrevo o título Aliança espremida e clico em uma ferramenta, para pôr em negrito. Essa denominação para o vídeo com fotos nossas fala muito sobre o nosso relacionamento, mais precisamente sobre o fim. O porquê desse vídeo? Não sei. Possivelmente para parar um pouco essa saudade existente em meu coração. O computador pesa, como se meus sentimentos estivessem se teletransportando para ele.

Estávamos selados com um pacto. Ele consistia em: amar sem pressão, dar sentimentos e retribuir paixão, não ultrapassando a nossa própria. Mas você transpassou. O seu amor-próprio se esvaiu numa torneira grudada em seu âmago. E, infelizmente, você não cessou. Continue Reading

Contos e Crônicas

O meu reencontro

Acordei procurando você na cama, me sentindo sozinho. Eu realmente estava. Seu cheiro inundava o ambiente, me deixando mais enamorado. Entrementes, vários porquês se misturaram com o perfume, afinal, você não tinha nenhum compromisso àquela manhã. Mas sumiu, simplesmente. E sem me acordar, sem dar um sinal de despedida.

Eu vi uma carta em cima da sua penteadeira e impulsivamente, corri. Sentado no banquinho, pensei, pensei e hesitei antes de tocar no papel. Vislumbrei uns fios do seu cabelo entrelaçados nas cerdas da sua escova, que estava ao lado. Peguei os fios e juntei como se fossem uma simples mecha. Parecia um sonho. Parecia que você tinha feito propositadamente, só para te amar mais. E funcionou… até eu ler a carta.

Com letras grandes, o papel mais parecia um grito para mim. Mas não um grito de socorro. Era mais um grito de ira. Já sem medo do escrito, o li:
Covarde. Você é um covarde. Essa é a causa. Você não soube me valorizar, me amar e fazer me sentir apaixonada. Porque você é um covarde e sempre vai ser. Eu sentia demais, intensamente. Já você… não retribuiu, não me deu a reciprocidade. Você não se arriscava. Era só isso que eu desejava, nunca foi difícil de entender. Você e a sua mania em falar do imperfeito, do valor do amor imperfeito, dos sentimentos mais diferentes que um coração pode sentir. Coisa de covarde. Não custava você me dar a temperatura máxima da sua paixão por mim. Eu te dei a minha. E vi como foi totalmente errado. O nosso relacionamento foi errado. Acabou, terminou. Eu vou atrás de um amor verdadeiro.

Covarde. Eu não sou. Nunca fui covarde, nunca deixei de te amar, nunca menti sobre o meu amor interior, tão poderoso. Você se autoacovardou, sem que eu precisasse ajudar. Seu desejo realmente era ganhar a minha maior temperatura, mas você não quis esperar o meu fogo se ascender. Eu não iria mentir para você. Eu me amava mais do que eu te amava e isso não iria mudar. O amor imperfeito é o mais sincero, mais bonito, mas você buscava a perfeição, algo inexistente. Eu valorizei os seus sentimentos por mim, até demais. Valorizava nossos momentos juntos. Mas eu jamais iria arriscar te amar mais e mais, pois o amor vai crescendo, ele não chega completamente gigantesco. Era necessário esperar, porém, você não esperou e me deixou. Você nunca vai achar o amor verdadeiro em alguém e sabe por quê? Porque ele está em você. E você não enxerga-o porque está perdida em si mesma. Acabou? Terminou? Certo. Eu vou sentir sua falta, mas muito obrigado.

Levantei-me do banquinho após o meu desabafo pro espelho. Seu espelho, parte mais importante da penteadeira. Peguei uma sacola na cozinha e voltei para o móvel em que estava. Com o braço esquerdo, arrastei todas as suas coisas para dentro do saco, mas um pequeno frasco de perfume caiu. Abaixei um braço e o peguei, vendo que só restava minúsculas gotas. Apertei o pequeno botão, para que ele espirrasse o seu cheiro uma última vez.

Entrei no banheiro e levei a mecha do seu cabelo que juntei. Deixei que ela caísse no ralo enquanto a água também ia embora. Com uma toalha no corpo, me sentei novamente à penteadeira, e encarei meu rosto no espelho, lembrando que eu já havia me encontrado com você, mas teria que me reencontrar.

Contos e Crônicas

AGORA ELA ESTÁ BEM

Ela era infeliz com ele, ele fingia ser feliz com ela. Irônico, eu sei, mas isso realmente aconteceu, não só uma vez. Duas, três, quatro, cinco, seis vezes até… até que eles pararam de agir como duas palmeiras vizinhas. Aliás, eles realmente pareciam essas árvores, só que, vez ou outra, ele tinha suas irritações.

Eles dividiam o mesmo sol, mesmo que os raios dessa estrela gigante e quente fizessem Ela brilhar mais, dando-lhe vigor. Ele, com inveja, não sabia aproveitar a luz que também recebia. Nos fins de tarde, quando o sol desaparecia, Ele ficava amoroso com Ela, na intenção de ter o seu ego inflado.

Mas em todo início de noite, a lua aparece, e quando isso acontecia, Ele voltava a sentir inveja da sua parceira. Isso porque a lua iluminava Ela com mais intensidade e favoritismo. Ela não tinha culpa, porém, Ele achava que Ela era uma ladra de atenções.

Os ventos do céu a deixavam mais imponente, com suas folhas dançando alegres. Já as folhas Dele, queriam se mexer em sintonia, mas eram impedidas pelo peso dos sentimentos ruins Dele. E Ele não percebia o quanto isso o fazia mal. Ele ficou cada vez mais cego, enquanto Ela só crescia e florescia a cada dia, cada verão, cada estação. Ela nutria em si o amor, a alegria, o otimismo, mesmo que Ele a menosprezasse.

Numa noite de chuva, ele a humilhou, gritou e cuspiu palavras com nojo em cima Dela. As gotas de água caíam nos dois, e Ela, pensativa, decidiu ir embora, deixando que a água lhe deixasse purificada e forte para a sua nova jornada, agora sozinha. Ela nunca precisou Dele, e teve a certeza disso quando viu o sol, a lua, o ar e o solo fértil indo atrás de seus passos, pois não importa onde se esteja, quem sente boas emoções no coração, fica bem em qualquer lugar.

Contos e Crônicas

SOBRE SER SEREIO


Eu ainda era um sereio quando o nosso primeiro encontro aconteceu. Você se fascinou por mim, que tinha desenhos feitos de sal espalhados no corpo, que tremeluziam à luz do sol, além da minha cauda, que era de várias cores, variando conforme os meus sentimentos em cada instante da minha vida.

Meu esconderijo, minha casa não era uma espécie de fenda do biquíni, era simplesmente o oceano. Ele me acolheu como um pai e me transformou em um encantador de pessoas. Meu dever era alimentar sua fome, sem arrependimentos pelo destino cruel que iria acometer vários navegantes com o meu canto, inclusive você.

Mas você… mudou tudo.

Seu jeito me fez sentir atração em você, que toda noite, saía da sua cabine para ver o mar. Até que um dia você me viu te olhando com firmeza e se assustou quando eu disse ser um ser místico, tão real quanto àquelas ondas que me rondavam. Você me subiu com uma corda para dentro do navio e nós conversamos até amanhecer.

Nossos encontros ficaram mais rotineiros, pois você tinha uma enorme necessidade de desabafar e eu era um perfeito ouvinte. Você me contou sobre os seus relacionamentos passados, demonstrando superação. Isso me fez te admirar. Até mais que a sua beleza, tão inebriante. Seus olhos se tornavam espelhos diante do meu corpo tão parecido com peixes exóticos.

Não demorou muito para que começássemos a sentir afeto um pelo outro. O oceano sequer percebeu a minha relação com você, já que ele continuava dormindo, à espera do dia em que eu teria de provocar mais um naufrágio. Eu me sentia meio incomodado em me relacionar com você sabendo que iria ter que te dar um fim. Quando eu mergulhava para dentro da água, me culpava de forma quase voraz. Só não culpava o meu coração, afinal, ele não tinha culpa como eu.

Foi errado ter te escondido tudo, foi. No entanto, só queria evitar mais uma decepção na sua vida, mesmo que isso custasse ela para sempre.

O dia que tanto me amedrontou chegou e o oceano despertou do seu sono, faminto. Vi você me esperando, confusa, sem entender o porquê do meu sumiço súbito. Com lágrimas escorrendo e molhando minhas tatuagens de sal, eu cantei a música mais fatal do mundo, a música do afogamento.

Os passageiros, um a um, se jogaram para dentro do mar, saciando o oceano, que sem esforço algum, fazia o navio afundar aos poucos. Quando era a hora da sua vez, parei de cantar instantaneamente. Me recusei a continuar. Não podia, tinha que me sacrificar. Por você, por nós, por nosso carinho mútuo. Mas eu já esperava a revolta do oceano, que fez grande maremotos, me afundando com força.

Pedi perdão, clamei, chorei por você. Ele não quis me ouvir, mas sentiu o meu sofrimento. Temi por você, que estava a ponto de imergir com o navio. O oceano finalmente me entendeu e me subiu de volta à margem. Antes que pudesse ter evitado, você caiu pesadamente no mar, mas o oceano te empurrou para a areia, salvando você para mim. Agora, já está amanhecendo, o sol está quase visível e eu nado até você.

E nado, nado, nado e nada de ver você. O oceano, por amor, me empurra mais um pouco, em forma de despedida. Nado, nado, nado e me deparo com duas pernas substituindo minha cauda. Te vejo caída na areia, tossindo e cuspindo água. Corro pra te ver, me ajoelho, e te beijo. Para tirar a água salgada de você, para você respirar, para te amar. Sem nenhum feitiço de sereio.