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Emanoel Freire

AGORA ELA ESTÁ BEM

Ela era infeliz com ele, ele fingia ser feliz com ela. Irônico, eu sei, mas isso realmente aconteceu, não só uma vez. Duas, três, quatro, cinco, seis vezes até… até que eles pararam de agir como duas palmeiras vizinhas. Aliás, eles realmente pareciam essas árvores, só que, vez ou outra, ele tinha suas irritações.

Eles dividiam o mesmo sol, mesmo que os raios dessa estrela gigante e quente fizessem Ela brilhar mais, dando-lhe vigor. Ele, com inveja, não sabia aproveitar a luz que também recebia. Nos fins de tarde, quando o sol desaparecia, Ele ficava amoroso com Ela, na intenção de ter o seu ego inflado.

Mas em todo início de noite, a lua aparece, e quando isso acontecia, Ele voltava a sentir inveja da sua parceira. Isso porque a lua iluminava Ela com mais intensidade e favoritismo. Ela não tinha culpa, porém, Ele achava que Ela era uma ladra de atenções.

Os ventos do céu a deixavam mais imponente, com suas folhas dançando alegres. Já as folhas Dele, queriam se mexer em sintonia, mas eram impedidas pelo peso dos sentimentos ruins Dele. E Ele não percebia o quanto isso o fazia mal. Ele ficou cada vez mais cego, enquanto Ela só crescia e florescia a cada dia, cada verão, cada estação. Ela nutria em si o amor, a alegria, o otimismo, mesmo que Ele a menosprezasse.

Numa noite de chuva, ele a humilhou, gritou e cuspiu palavras com nojo em cima Dela. As gotas de água caíam nos dois, e Ela, pensativa, decidiu ir embora, deixando que a água lhe deixasse purificada e forte para a sua nova jornada, agora sozinha. Ela nunca precisou Dele, e teve a certeza disso quando viu o sol, a lua, o ar e o solo fértil indo atrás de seus passos, pois não importa onde se esteja, quem sente boas emoções no coração, fica bem em qualquer lugar.

SOBRE SER SEREIO


Eu ainda era um sereio quando o nosso primeiro encontro aconteceu. Você se fascinou por mim, que tinha desenhos feitos de sal espalhados no corpo, que tremeluziam à luz do sol, além da minha cauda, que era de várias cores, variando conforme os meus sentimentos em cada instante da minha vida.

Meu esconderijo, minha casa não era uma espécie de fenda do biquíni, era simplesmente o oceano. Ele me acolheu como um pai e me transformou em um encantador de pessoas. Meu dever era alimentar sua fome, sem arrependimentos pelo destino cruel que iria acometer vários navegantes com o meu canto, inclusive você.

Mas você… mudou tudo.

Seu jeito me fez sentir atração em você, que toda noite, saía da sua cabine para ver o mar. Até que um dia você me viu te olhando com firmeza e se assustou quando eu disse ser um ser místico, tão real quanto àquelas ondas que me rondavam. Você me subiu com uma corda para dentro do navio e nós conversamos até amanhecer.

Nossos encontros ficaram mais rotineiros, pois você tinha uma enorme necessidade de desabafar e eu era um perfeito ouvinte. Você me contou sobre os seus relacionamentos passados, demonstrando superação. Isso me fez te admirar. Até mais que a sua beleza, tão inebriante. Seus olhos se tornavam espelhos diante do meu corpo tão parecido com peixes exóticos.

Não demorou muito para que começássemos a sentir afeto um pelo outro. O oceano sequer percebeu a minha relação com você, já que ele continuava dormindo, à espera do dia em que eu teria de provocar mais um naufrágio. Eu me sentia meio incomodado em me relacionar com você sabendo que iria ter que te dar um fim. Quando eu mergulhava para dentro da água, me culpava de forma quase voraz. Só não culpava o meu coração, afinal, ele não tinha culpa como eu.

Foi errado ter te escondido tudo, foi. No entanto, só queria evitar mais uma decepção na sua vida, mesmo que isso custasse ela para sempre.

O dia que tanto me amedrontou chegou e o oceano despertou do seu sono, faminto. Vi você me esperando, confusa, sem entender o porquê do meu sumiço súbito. Com lágrimas escorrendo e molhando minhas tatuagens de sal, eu cantei a música mais fatal do mundo, a música do afogamento.

Os passageiros, um a um, se jogaram para dentro do mar, saciando o oceano, que sem esforço algum, fazia o navio afundar aos poucos. Quando era a hora da sua vez, parei de cantar instantaneamente. Me recusei a continuar. Não podia, tinha que me sacrificar. Por você, por nós, por nosso carinho mútuo. Mas eu já esperava a revolta do oceano, que fez grande maremotos, me afundando com força.

Pedi perdão, clamei, chorei por você. Ele não quis me ouvir, mas sentiu o meu sofrimento. Temi por você, que estava a ponto de imergir com o navio. O oceano finalmente me entendeu e me subiu de volta à margem. Antes que pudesse ter evitado, você caiu pesadamente no mar, mas o oceano te empurrou para a areia, salvando você para mim. Agora, já está amanhecendo, o sol está quase visível e eu nado até você.

E nado, nado, nado e nada de ver você. O oceano, por amor, me empurra mais um pouco, em forma de despedida. Nado, nado, nado e me deparo com duas pernas substituindo minha cauda. Te vejo caída na areia, tossindo e cuspindo água. Corro pra te ver, me ajoelho, e te beijo. Para tirar a água salgada de você, para você respirar, para te amar. Sem nenhum feitiço de sereio.