All Posts By

Mariana Lira

Para viver um grande amor… depois dos 30

Fato: se eu tivesse a cabeça que tenho hoje há, digamos, vinte anos atrás, teria sido muito mais feliz – ou pelo menos teria tido menos problemas. Jovens são muito dramáticos. Levam tudo a ferro e a fogo. Acabam transformando algo leve numa guerra dos cem anos. Os amores são os da vida; as paixões, as derradeiras; e os términos definitivos. Tudo é oito ou oitenta – e, venhamos e convenhamos, isso é chato que só a porra. Com a cabeça que tenho hoje aos vinte e poucos, eu teria sido a dona da história.

No entanto, como não posso apertar um botão e fazer o tempo retornar – pois como diz o Lenine “o tempo não tem parada” -, resolvi reaprender, tendo como base tudo o que sei hoje, a viver um grande amor… só que depois dos trinta. Viver em sua plenitude, sem considerações malucas ou abestalhadas. Viver o que tiver de ser vivido, no momento exato de seu nascimento. Eis o que aprendi até agora:

– Para viver um grande amor depois dos trinta, urgente é se amar primeiro. Saber-se suficiente em sua estrada, pois gente adulta trabalha, faz feira, tem problema e não aguenta os mimimis adolescentes (e, de repente, eu compreendo aquele cara de 35 que me dispensou quando eu tinha apenas 15. Te compreendo, parceiro!)

– É preciso, também, saber que o outro tem um mundo só dele, respeitar seus espaços, seus silêncios e compreendê-los como respiros – e não como um afastamento louco desses que a cabeça da meninada inventa.

– Tem que saber se divertir – tomar cerveja, sair pra balada, falar besteira e não se prender a nada pois gente como a gente quer ser feliz e dar risada e não perder tempo com cara feia.

– É preciso saber aceitar que as coisas nem sempre sairão como a gente planeja; que planejar às vezes pode ser uma merda; e que o acaso na maioria das vezes nos reserva as melhores surpresas do dia. Deixe-se levar!

– Seja leve, releve e não leve tudo tão a sério. A maturidade nos ensina que o peso dos dias já é suficiente sobre ombros já tão sobrecarregados.

– Atreva-se! Não perca tempo fazendo conjecturas. Depois dos trinta, a vida dá um pulo e de repente você dá de cara com um reflexo no espelho que jura não ser o seu. Se lá atrás você se lascou por medo, vergonha, receio, toque o foda-se e seja feliz! A sua conta bancária vai te permitir pelo menos um momento assim, ok?!

– Ame em demasia, sem máscaras, sem amarras. Você já interpreta papéis demais na sociedade, no trabalho, na vida. No amor, não cabem fantasias – a não ser, é claro, as sexuais.

– Seja sincero – consigo mesmo e com o outro. Deixar tudo às claras é sempre melhor caminho.

– Liberte-se das convenções. Seja você mesmo. E deixe que o outro te veja e seja ele mesmo autêntico ao passar por sua vida.

– Compreenda que os movimentos da vida são inconstantes – e que esta é sua maior beleza. Só não acredite no mito do amor eterno. Aqueles que resistem ao tempo são os que aprenderam a se reinventar, dia após dia, sendo, assim, cada dia um amor novo.

– Exija cedências e saiba ceder. A vida é um balé dançado por muitos, beleza?
– Acredite fielmente na sua intuição. Creia: ela nunca falha.

– Se tá complicado, descomplique! Não jogue ainda mais lenha no que ainda é apenas uma brasinha.

E, o mais importante de tudo: aceite o amor como e quando ele vier. Um amor verdadeiro, forte e sereno, pode até ser breve, mas com certeza vai te ensinar muito mais do que uma relação certinha. O amor, caros leitores, nos ensinar o auto amor e o respeito próprio. Nos ensina que podemos voar muito mais alto do que a vida nos faz acreditar. Nos mostra todas as portas que sempre estiveram abertas e que nós nunca tivemos olhos para enxergar.

O verdadeiro amor liberta e salva – mesmo que não tenha existido para durar.

Não chegue na hora marcada.

 

Olhou bem fundo no espelho de sua alma e disse: agora vai! Tá com medo?! Vai com medo mesmo, mas não perca mais esta oportunidade. E seguiu o caminho ao acaso, repetindo, vez em quando, uma dessas frases, clichês nas boleias de caminhão e nas dramáticas postagens do Instagram. Não vai amarelar – ela se ordenou uma última vez.

Toda essa veemência era necessária visto ao fiasco que as tentativas anteriores tinham sido. 20 anos antes, ainda menina, boba e amiudada pela falta de experiências, ela deixou de lado a chance de ser feliz. Ok! Diferentemente daquela época, na qual ela acreditava no mito do príncipe encantado e do felizes para sempre, hoje ela não aposta em felicidade eterna. Aprendeu que a vida se constrói feliz com base em momentos e foram estes os quais, lá atrás, ela deixou de viver por conta de coisas frívolas.

Agora não. Agora era diferente. Agora ela era uma mulher, lá pelos 30 ou talvez beirando os 40, com uma conta bancária abastecida e o mundo inteiro em suas mãos. Não havia o menor motivo para desistir, procrastinar ou simplesmente não ir. Mas, mesmo assim, tal e qual uma menina abestalhada, ela estava paralisada de medo. O pior de tudo, ela sabe, é que eram esses medos idiotas contra os quais a gente tanto luta: será que ele ainda vai gostar de mim?! Será que estou mais gorda ou mais magra?! E a idade, será que pesa?! E, apesar de ter um séquito atrás dela gritando – foda-se! ele tem que gostar de você assim!! -, ela seguia gélida com a possibilidade de uma rejeição nunca antes experimentada.

E, tal e qual aquela antiga música, o mundo havia girado, ela malhou que só a gota, arrumou o cabelo e a alma e foi lá, decidida a ir definitivamente ao encontro do seu passado. Acima de tudo e, apesar de tudo, era hora de pensar mais nela mesma: no que ela realmente queria e esperava da vida e, pelo menos, dar um ponto final decente a toda aquela história. Aquela mulher precisava de novas memórias e iria construí-las a qualquer custo.

Em frente ao espelho da sua alma, entretanto, ela foi compreendendo que todas aquelas camadas somente escondiam sua verdadeira essência, aquela pela qual ele havia se apaixonado tantos anos antes. Aceitou, então, sua beleza natural, esculpida entre as rugas, gordurinhas e marcas na pele ao longo dos anos, mas também com os muitos goles de cerveja, farras com amigos, vitórias e conquistas alcançadas. Aquele encontro pedia, necessariamente, muito mais de alguém que ela sempre escondera: ela mesma.

E desde que essa história (re)começou, ela vem aprendendo a se enxergar com mais complacência e amor; mais cuidado e mais carinho, pois, no fim das contas, seja lá o que tiver de acontecer, depende apenas de ela estar segura e feliz com quem se tornou, com a vida que viveu e com quem compartilhou tanta estrada. Quase sem querer (será?!), este amor do passado resgatou a mulher que ela, de repente, havia se tornado. Tirou-lhe do automático, devolveu-lhe o arrepio no pescoço e a certeza de que, como dizia Antoine de Saint-Exupéry, em seu lépido e fantástico “O Pequeno Príncipe”, “só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”.