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Mariana Lira

Contos e Crônicas

Pra você, que não mora mais em mim

Quando eu era criança, pensava como criança, agia como criança e era feliz. Todos os dias, fim de tarde, eu ia para a casa do meu avô, quebrar pedrinhas e plantar sementinhas no jardim. Essas lembranças ainda me chegam enevoadas, como se fossem sonhos. Elas me dão a certeza, quando tudo vai mal, que, de uma forma ou de outra, eu fui feliz.

Reencontrar você, ao contrário do que eu acreditava, foi um acidente de percurso. Continue Reading

Superação

A grande descoberta ou o monstro do são saber viver

Eu queria poder segurar a sua mão, meu jovem amigo, e afirmar categoricamente que tudo fica mais fácil. Gostaria, mesmo, de dar um sorrido bobo, capaz de te fazer acreditar que a maturidade abranda e adoça a vida. Não é isso o que dizem?! Que os adultos sabem das coisas e que a vida encontra seus próprios caminhos? Entretanto, meu rebento, eu não posso dizer isso. Não seria justo! Não seria certo enganá-lo com uma fábula sobre a vida, a qual distorceria a verdade dos fatos. E qual é? A vida se agiganta e, com ela, os problemas tomam proporções colossais. A grande sacada, isso eu te digo, é aprender a lidar com toda essa confusão.

Ahhhh, por favor, não me pergunte como fazer isso. Eu não sei! (não ainda). Temos, por certo, alguns anos a nos separar, mas nada capaz de me transformar numa senhorinha corcunda e enrugada. Sou, no máximo, uma pré-loba. E acabo de descobrir que eu não sei nada sobre a vida. Eu já fui como você. Pois sim. Já acreditei que, aos 35 anos, tudo estaria estável, como naqueles comerciais de margarina. Filhos felizes, marido lindo e com dentes muito brancos e sorridentes, carro do ano na garagem, uma casa de cerquinha branca e a alegria de ter o emprego dos sonhos. Mas é uma merda. Certa está a Dori: continue a nadar! É o que você precisa fazer – sempre, sem parar!

Um dia você vai olhar no espelho e se perguntar onde está aquele jovem descolado. Curvas e músculos no lugar, brilho nos olhos e, sobre a cabeça, milhares de balõezinhos cheios de sonhos. De repente, você só enxerga rugas, pele ressecada e olhos muito opacos, repletos de cansaço e de tristeza. Intrigado, você se perguntará: onde eu errei?! O que fiz de errado?! Segui todos os conselhos dos professores, dos chefes, dos pais, do melhor amigo, dos tios amorosos (às vezes nem tanto) e de todos aqueles que você enxergava mais sábios. De sobressalto, vai fazer a mais dura das indagações: e por que eu não fiz aquilo que, de fato, eu queria?! Eis o grande erro de todos nós.

A gente monta a vida como aquele comercial de margarina, sabe?! Sonhando com uma existência pré-moldada, a qual esteja dentro dos padrões dos outros. É que na verdade a gente tem medo de se indagar sobre o que realmente gosta, o que quer da vida, o que pretende ser quando crescer. A gente esquece de incluir a gente nesse plano todo. E, de repente, enxergamos naquele espelho lá de cima (lembra?!) uma outra pessoa – exatamente essa que a gente criou para o comercial de margarina. A gente só não se enxerga. Não estamos lá, naquela cena borrada e esquisita. Nos descobrimos meros observadores de uma vida que, por direito, deveria ser somente nossa.

Não se culpe tanto quando descobrir isso, ok?! Ninguém tem a coragem de nos ensinar a sermos nós mesmos. Até os mais sábios, coitados, também caíram nessa mesma pegadinha e acabaram propagando essa falácia por pura incapacidade de ser de outro jeito. Acredite: eles também estão perdidos e assustados. O importante – eu acho – é que você, um dia, seja capaz de fazer essa descoberta. Seja quando for: ainda jovem ou aos 35, como eu. E, quando isso acontecer, tenha coragem, tá bom?!

Seja complacente e amoroso consigo mesmo. Vai ser difícil outra pessoa fazer isso por você caso não enxergue nos seus olhos o brilho de quem acredita em si mesmo. É sempre tempo de recomeçar, sabe?! A vida é feita de novas chances, novas oportunidades, novas escolhas, novos caminhos. Cada novo dia é mais uma chance de fazer melhor, maior, fazer do seu jeito. E se a sua vida for um comercial de coca-cola?! E se ela for um filme da Disney?! Ou de Bollywood, quem sabe?! Quem sabe a sua vida seja uma simples produção independente, cheia de idiossincrasias? Grave uma nova fita, pegue um novo take, faça um roteiro diferente. Quem sabe o que a vida nos reserva no horizonte do amanhã? Apenas siga. E, pelo amor de Deus: seja visceralmente feliz!

 

 

Não categorizado

Para viver um grande amor… depois dos 30

Fato: se eu tivesse a cabeça que tenho hoje há, digamos, vinte anos atrás, teria sido muito mais feliz – ou pelo menos teria tido menos problemas. Jovens são muito dramáticos. Levam tudo a ferro e a fogo. Acabam transformando algo leve numa guerra dos cem anos. Os amores são os da vida; as paixões, as derradeiras; e os términos definitivos. Tudo é oito ou oitenta – e, venhamos e convenhamos, isso é chato que só a porra. Com a cabeça que tenho hoje aos vinte e poucos, eu teria sido a dona da história.

No entanto, como não posso apertar um botão e fazer o tempo retornar – pois como diz o Lenine “o tempo não tem parada” -, resolvi reaprender, tendo como base tudo o que sei hoje, a viver um grande amor… só que depois dos trinta. Viver em sua plenitude, sem considerações malucas ou abestalhadas. Viver o que tiver de ser vivido, no momento exato de seu nascimento. Eis o que aprendi até agora:

– Para viver um grande amor depois dos trinta, urgente é se amar primeiro. Saber-se suficiente em sua estrada, pois gente adulta trabalha, faz feira, tem problema e não aguenta os mimimis adolescentes (e, de repente, eu compreendo aquele cara de 35 que me dispensou quando eu tinha apenas 15. Te compreendo, parceiro!)

– É preciso, também, saber que o outro tem um mundo só dele, respeitar seus espaços, seus silêncios e compreendê-los como respiros – e não como um afastamento louco desses que a cabeça da meninada inventa.

– Tem que saber se divertir – tomar cerveja, sair pra balada, falar besteira e não se prender a nada pois gente como a gente quer ser feliz e dar risada e não perder tempo com cara feia.

– É preciso saber aceitar que as coisas nem sempre sairão como a gente planeja; que planejar às vezes pode ser uma merda; e que o acaso na maioria das vezes nos reserva as melhores surpresas do dia. Deixe-se levar!

– Seja leve, releve e não leve tudo tão a sério. A maturidade nos ensina que o peso dos dias já é suficiente sobre ombros já tão sobrecarregados.

– Atreva-se! Não perca tempo fazendo conjecturas. Depois dos trinta, a vida dá um pulo e de repente você dá de cara com um reflexo no espelho que jura não ser o seu. Se lá atrás você se lascou por medo, vergonha, receio, toque o foda-se e seja feliz! A sua conta bancária vai te permitir pelo menos um momento assim, ok?!

– Ame em demasia, sem máscaras, sem amarras. Você já interpreta papéis demais na sociedade, no trabalho, na vida. No amor, não cabem fantasias – a não ser, é claro, as sexuais.

– Seja sincero – consigo mesmo e com o outro. Deixar tudo às claras é sempre melhor caminho.

– Liberte-se das convenções. Seja você mesmo. E deixe que o outro te veja e seja ele mesmo autêntico ao passar por sua vida.

– Compreenda que os movimentos da vida são inconstantes – e que esta é sua maior beleza. Só não acredite no mito do amor eterno. Aqueles que resistem ao tempo são os que aprenderam a se reinventar, dia após dia, sendo, assim, cada dia um amor novo.

– Exija cedências e saiba ceder. A vida é um balé dançado por muitos, beleza?
– Acredite fielmente na sua intuição. Creia: ela nunca falha.

– Se tá complicado, descomplique! Não jogue ainda mais lenha no que ainda é apenas uma brasinha.

E, o mais importante de tudo: aceite o amor como e quando ele vier. Um amor verdadeiro, forte e sereno, pode até ser breve, mas com certeza vai te ensinar muito mais do que uma relação certinha. O amor, caros leitores, nos ensinar o auto amor e o respeito próprio. Nos ensina que podemos voar muito mais alto do que a vida nos faz acreditar. Nos mostra todas as portas que sempre estiveram abertas e que nós nunca tivemos olhos para enxergar.

O verdadeiro amor liberta e salva – mesmo que não tenha existido para durar.

Contos e Crônicas

Não chegue na hora marcada.

 

Olhou bem fundo no espelho de sua alma e disse: agora vai! Tá com medo?! Vai com medo mesmo, mas não perca mais esta oportunidade. E seguiu o caminho ao acaso, repetindo, vez em quando, uma dessas frases, clichês nas boleias de caminhão e nas dramáticas postagens do Instagram. Não vai amarelar – ela se ordenou uma última vez.

Toda essa veemência era necessária visto ao fiasco que as tentativas anteriores tinham sido. 20 anos antes, ainda menina, boba e amiudada pela falta de experiências, ela deixou de lado a chance de ser feliz. Ok! Diferentemente daquela época, na qual ela acreditava no mito do príncipe encantado e do felizes para sempre, hoje ela não aposta em felicidade eterna. Aprendeu que a vida se constrói feliz com base em momentos e foram estes os quais, lá atrás, ela deixou de viver por conta de coisas frívolas.

Agora não. Agora era diferente. Agora ela era uma mulher, lá pelos 30 ou talvez beirando os 40, com uma conta bancária abastecida e o mundo inteiro em suas mãos. Não havia o menor motivo para desistir, procrastinar ou simplesmente não ir. Mas, mesmo assim, tal e qual uma menina abestalhada, ela estava paralisada de medo. O pior de tudo, ela sabe, é que eram esses medos idiotas contra os quais a gente tanto luta: será que ele ainda vai gostar de mim?! Será que estou mais gorda ou mais magra?! E a idade, será que pesa?! E, apesar de ter um séquito atrás dela gritando – foda-se! ele tem que gostar de você assim!! -, ela seguia gélida com a possibilidade de uma rejeição nunca antes experimentada.

E, tal e qual aquela antiga música, o mundo havia girado, ela malhou que só a gota, arrumou o cabelo e a alma e foi lá, decidida a ir definitivamente ao encontro do seu passado. Acima de tudo e, apesar de tudo, era hora de pensar mais nela mesma: no que ela realmente queria e esperava da vida e, pelo menos, dar um ponto final decente a toda aquela história. Aquela mulher precisava de novas memórias e iria construí-las a qualquer custo.

Em frente ao espelho da sua alma, entretanto, ela foi compreendendo que todas aquelas camadas somente escondiam sua verdadeira essência, aquela pela qual ele havia se apaixonado tantos anos antes. Aceitou, então, sua beleza natural, esculpida entre as rugas, gordurinhas e marcas na pele ao longo dos anos, mas também com os muitos goles de cerveja, farras com amigos, vitórias e conquistas alcançadas. Aquele encontro pedia, necessariamente, muito mais de alguém que ela sempre escondera: ela mesma.

E desde que essa história (re)começou, ela vem aprendendo a se enxergar com mais complacência e amor; mais cuidado e mais carinho, pois, no fim das contas, seja lá o que tiver de acontecer, depende apenas de ela estar segura e feliz com quem se tornou, com a vida que viveu e com quem compartilhou tanta estrada. Quase sem querer (será?!), este amor do passado resgatou a mulher que ela, de repente, havia se tornado. Tirou-lhe do automático, devolveu-lhe o arrepio no pescoço e a certeza de que, como dizia Antoine de Saint-Exupéry, em seu lépido e fantástico “O Pequeno Príncipe”, “só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”.