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R. M. Cordeiro

Pensamentos Relacionamento

Do jeito que ela é

Ela olha no espelho e encara o receio no reflexo. Seus olhos não conseguem esconder o que tenta ocultar de si mesma. Ensaia um sorriso, mas os lábios insistem em um tremor que mais parece uma careta, denunciando-a. Fora isso, sua aparência é ótima. Os olhos miúdos estão enfeitados com uma sombra que realça a cor natural das íris castanhas com pontos dourados, os cílios longos e volumosos ficam charmosos durante as piscadelas, as maçãs do rosto estão bem marcadas com o blush que lhe dá uma aparência saudável. Nos lábios, o vermelho com efeito matte, deixa-os convidativos e ela tem certeza de que o homem que a espera à mesa apreciou o conjunto da obra.

Mas, considerando que o conheceu através de um aplicativo de paquera online, talvez ele ainda quisesse beijá-la, mesmo que não estivesse tão bem produzida. Afinal, o propósito da maioria das pessoas que fazem uso desses aplicativos é encontrar um atalho para a conquista de uma noite. Ao menos é assim que ela ainda vê essa situação, mesmo fazendo parte disso na situação presente. Mas, olhando francamente para dentro de si mesma, admite que aderiu “ao movimento” porque estava cansada.

Cansada de ficar sozinha em casa todo sábado à noite, enquanto a maioria das pessoas, inclusive as solteiras como ela, estão por aí curtindo, explorando, experimentando. Cansada de só conversar com pessoas do trabalho e sobre o trabalho. Cansada de emitir a mesma resposta vazia, quando a melhor amiga desde os onze anos de idade pergunta “quais as novidades?”. Cansada de se sentir tão deslocada.

Não que pense que há algo de errado em si própria. Isso não! Mesmo quando o cara diz que ela é sensacional, mas ainda assim escolhe não ficar com ela (o que convenhamos, se ele realmente pensasse isso, porque abriria mão dela???), ou quando outro diz que ela é “areia” demais para ele, fazendo-o se sentir inferior (de fato, ela é mesmo!). Ela só não sabe como se encaixar. E o esforço para “fazer parte” é exaustivo, fadigante e a consome mais do que está disposta realmente a oferecer.

Por baixo da sua figura de supermulher, existe um ser humano, que só quer ter uma conexão com outro ser humano. Ela só quer fazer parte do que faz outra pessoa feliz. Só quer ter certeza de que sua participação, ainda que pequena na rotina de alguém, tornou a vida dessa pessoa melhor.

Ela não deseja um romance louco de cinema. Só quer alguém que a ouça quando cantarola “I came home, Like a stone, And I fell heavy into your arms, These days of dust, Which we’ve known, Will blow away with this new sun” , mesmo que ele nunca tenha ouvido a banda Mumford & Sons. Ela não deseja grandes demonstrações públicas de afeto, só deseja o carinho presente em pequenos gestos diários como assistir com ela pela milionésima vez o último episódio de Friends. Ela não deseja alguém que na frente das pessoas ostenta uma visão politizada e liberal sobre a sociedade, mas que não se compadece quando ouve falar sobre maus tratos e miséria. Ela deseja encontrar alguém que respeite suas opiniões, não alguém que ri de sua ingenuidade por ainda querer uma ceia de Natal típica ou de sua falta de conhecimento sobre quem são os jogadores de futebol mais valiosos da atualidade.

Ela já quis em sua vida músicos, médicos, escritores… Hoje ela só quer alguém que a aceite do jeito que ela é.
Talvez seja o moço que a espera no restaurante, em uma mesa aconchegante, perto da janela de onde podem vislumbrar o que acontece nas ruas de São Paulo. Esse pensamento a faz sorrir de verdade e dando um último retoque na maquiagem e na esperança, ela retorna ao seu encontro.

Pensamentos Superação

E aquele adeus, não pude dar

É sempre difícil e doloroso dizer adeus. Não estamos acostumados a deixar ir. Queremos sempre ter tudo e todos por perto, o máximo de tempo possível, numa tentativa de ignorar o correr das horas, pois no fundo sabemos que não há maneira de escapar do adeus, seja breve ou tardio. Não tem como fugir da perda de um pedacinho nosso a cada adeus dito e sentido. Continue Reading

Pensamentos Relacionamento

Obrigada por estar sempre aqui!

Algumas pessoas entram em nossas vidas por um período que pode ser considerado longo, que costuma durar alguns anos – durante o período de faculdade ou até mesmo de um emprego e por um bom tempo, a gente mantém contato, conversa, se encontra de vez em quando para bater papo e matar as saudades. Mas o tempo se encarrega de colocar empecilhos a cada novo encontro e o distanciamento vai chegando aos poucos, até que a gente só se recorda uns dos outros, quando vê alguma foto nas redes sociais e o máximo de contato que conseguimos manter é uma troca de likes. Continue Reading

Contos e Crônicas

Ela

Ela anda distraída pelas ruas da cidade, pensamentos desconexos e desconectados com o ambiente ao redor. Tem a impressão de que o mundo continua girando em uma direção, enquanto ela caminha num rumo totalmente diferente.

Busca conforto nos livros, letras de músicas, textos aleatórios encontrados na infinitude da internet… Imagina que Zack Magiezi escreve “Notas sobre Ela”, baseado em um conhecimento profundo de sua alma, como um melhor amigo que conhece todas as suas faces. Espera que algum dia alguém lhe escreva dedicatórias como Alexandre Guimarães faz para sua Doce Desconhecida, só para deixar seu dia um pouco melhor, mais bonito e mais doce. Aceita todos os pedidos que Fred Elboni faz, sem pestanejar, porque enxerga em cada palavra seus próprios anseios de felicidade.

Dos fones de ouvido ecoam suas canções preferidas, alimentando sua vontade peculiar de discutir ciúmes bobos ao som de Elvis Presley “We ca’nt go on together, with suspicius minds, and we can’t build our dreams on suspicius minds” (Suspicius Minds, Elvis Presley, 1969), ou desperta a vontade de se apaixonar de novo e de novo e de novo, com o coração embalado por Journey “And being apart ain’t easy,on this love affair, two strangers learn to fall, in love again, I get the joy of rediscovering you” (Faithfully, Journey, 1983).

Ela liga a TV, mas não enxerga o que passa, sua mente vagando em um mundo alternativo, repleto de imagens indecifráveis em uma paleta de cores indescritíveis e belas, enquanto o gênio da comunicação Silvio Santos, arranca gargalhadas de si mesmo e de uma plateia não presente mentalmente.

Dividindo os dias entre o que precisa fazer e sonhando com o que deseja realizar, ela está por aí no metrô tentando equilibrar a mochila em um braço e um livro no outro, enquanto desvia dos que passam por ela sem olhar; diante do espelho, procurando uma saia que disfarce o que acha imperfeito e um sapato que vai lhe causar dores, mas que é bonito, só para fazer uma boa figura diante de pessoas com quem ela nem sabe se quer estar; no ônibus olhando pela janela, enxergando coisas que só ela vê nas nuvens brancas ou cinzas, dependendo do dia; no Café bebericando um mocaccino que lhe aquece o peito e adoça os lábios que sorriem involuntariamente por esse pequeno gesto de generosidade a si própria. Ela está por aí, talvez do seu lado, ou talvez no reflexo do espelho. Porque ela é você. Ela sou eu. Tentando se encontrar enquanto se perde.

 

 

Pensamentos Superação

Não aguento mais falar de você

Alguns anos já se passaram. Seis para falar a verdade, se você decidir contar. Eu já superei você a essa altura, é claro. Mas, parece que algumas pessoas ainda não entenderam isso. Porque outro motivo, continuariam perguntando de ti para mim? Uma situação que infelizmente é mais recorrente do que eu considero natural.

Nessa semana, por dois dias seguidos seu nome acabou surgindo em conversas aleatórias. Primeiro, minha mãe perguntou sobre você – não faço ideia do motivo, eu estava falando de outra pessoa no momento quando ela disparou a pergunta “E o fulano?”. Eu olhei para minha mãe e me perguntei se ela estava falando sério ao me perguntar de você, mas achei melhor desviar o assunto e respondi a verdade, que estava me referindo a outra pessoa que chegou à minha vida depois de você. Depois uma colega de trabalho também perguntou se eu estava falando sobre você, sendo que a conversa que estávamos tendo nada tinha a ver contigo.
E tem sido assim nos últimos seis anos. Eu tentando deixar você no passado e as pessoas sempre trazendo seu nome à baila no presente, como se fosse divertido para elas me deixar constrangida com as lembranças que restaram. Que no fundo não são muito boas, preciso dizer.

Durante muito tempo eu carreguei o peso da culpa nos meus ombros. Sozinha. Até nossos amigos em comum na época, pareciam me dizer com seus olhares e atitudes, que a culpa era minha por tudo ter acontecido daquela maneira horrível. Por nós dois não termos “funcionado”.

Mas agora, depois de tanto tempo, eu consigo enxergar minha parcela de culpa sem sentir que é um fardo e até a aceito. Só que também enxergo a sua culpa. Afinal, você não quis conversar, não quis tentar discutir comigo o que você achava que estava errado com a nossa relação e continuou me provocando e me confundindo, me desestruturando, até não restar nada que pudesse ser feito para recuperar o que tínhamos de melhor. Você não quis a gente.

Doeu. Pra caramba e por mais tempo do que eu gosto de admitir. Mas hoje não dói mais. Finalmente. Só que eu realmente não aguento mais falar de você. Como se fosse uma ladainha interminável, eu estou exausta de ouvir seu nome. Estou exaurida de não conseguir desvincular minha vida da sua de uma vez por todas.

Não quero suscitar nenhum tipo de ressentimento entre nós. Na verdade, esse texto nem é para você. Essas palavras mal elaboradas e despejadas de maneira disforme, são para todas as pessoas que não param de falar de você. Porque quero deixar bem claro e indiscutível o fato de que eu não aguento mais falar de você e espero que a partir de agora, haja uma pedra em cima desse assunto, em cima do seu nome.

Sem lamentações ou desprezo, apenas quero seguir meu caminho, sem tropeçar no seu nome por aí. Perdoem-me se estou sendo grosseira, mas será que fui clara?
Espero que tenha sido cristalina.