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R. M. Cordeiro

Pensamentos Relacionamento Superação

Já consigo respirar

Há uns dias, um amigo me mandou uma playlist que ele montou no Spotify, com músicas pra gente ouvir quando está na bad. Como domingo é o dia oficial da bad, principalmente após o crepúsculo, coloquei para tocar durante o banho (sou dessas que ouve música em todos os cantos da casa, independente do que esteja fazendo – risos). Continue Reading

Contos e Crônicas

Faça um Pedido (Make a Wish)

A vida de estrela não é fácil, sabia? Todo dia ter a obrigação de acender minha luz interna como um vaga-lume e brilhar, mesmo quando há um monte de nuvens no céu e até quando a maioria das pessoas nem olha em nossa direção é cansativo. Um pouco de sossego cairia bem, é sério! Reconhecimento também, afinal de contas eu sou uma Estrela!!! Ih, lá vem meu supervisor Urano, deixa eu me acalmar, ele é um pouco, hum, irascível, desde o episódio dos filhos com a foice, aquele da rebelião dos titãs, sabe? Continue Reading

Contos e Crônicas

Um Milagre de Natal

Daniel respira fundo ao parar diante do Hospital, encarando a fachada com a tintura já um pouco desbotada. Estranha o pouco movimento na entrada, mas pensando bem, como é Natal, talvez as pessoas saudáveis não queiram frequentar um ambiente tão deprimente como um Hospital Infantil. Ele certamente não queria estar ali, mas está preso a uma promessa da qual não pode se esquivar.
Depois de se identificar na recepção, pega o elevador para o 5° andar. Ao caminhar pelo corredor, sente as pernas vacilarem um pouco. É a primeira vez que faz esse trajeto sozinho. Durante dez anos, ele acompanhou a esposa Rosana, nas visitas que ela fazia como voluntária às crianças do 5° andar, o andar dos “doentes terminais”, como algumas pessoas se referiam. Ali, dezenas de crianças com doenças em estágio terminal, ficavam internadas até que a vida se esvaísse de seus corpos.
Rosana gostava de visitar essas crianças, ler para elas, brincar com elas, arrancar-lhes um esboço de sorriso que fosse. Quando lhe perguntavam por que ela se dava ao trabalho de passar um domingo inteiro na companhia de crianças que talvez ela não visse na próxima visita, ela dava um sorriso misterioso, como alguém que sabe de um segredo que mais ninguém conhece. Mas, para Daniel, ela respondeu uma vez, dizendo que a vida dessas crianças já era triste demais para que as pessoas ficassem apenas sentindo pena delas, que se ela pudesse tornar o dia dessa criança melhor, era sua obrigação fazer isso.
Desde esse dia, Daniel a acompanhava todos os domingos em sua jornada para fazer uma pequena diferença na vida daqueles seres que tão cedo, já conheciam as agruras da vida. Exceto pelo último domingo, onde nenhum dos dois compareceu ao Hospital. Rosana havia falecido no sábado anterior, enquanto dormia, numa passagem tão tranquila quanto sua personalidade e o domingo havia sido dedicado em sua homenagem, num processo mais lento e doloroso do que Daniel esperara. Muitas pessoas haviam ido ao cemitério lhe prestar suas condolências, num desfile quase interminável de hipocrisia, enquanto internamente ele lutava para não gritar toda a dor que estava sentindo. Nenhuma daquelas pessoas sabia quem Rosana era de verdade.
Após finalizado o enterro, ele voltou para casa e junto com as filhas, separaram todas as coisas de Rosana entre o que seria mantido com eles e o que seria doado. Foi um momento sublime, tantas doces lembranças suscitadas… Aquela era a verdadeira homenagem à Rosana, sua família unida, lembrando de todas as coisas boas que ela havia ensinado a cada um deles. No meio das coisas pessoais de Rosana, encontraram cartas endereçadas a cada um deles. Daniel pegou a sua nas mãos como se fosse um tesouro precioso e ao mesmo tempo temível. Só abriu à noite, quando se encontrava sozinho na casa que eles compartilharam durante quarenta anos.
Na carta, Rosana declarava todo o amor que sentia pelo homem que havia dado o melhor de si para ela, exaltava alguns dos momentos mais memoráveis que passaram juntos e lhe fazia um pedido especial para quando ela não estivesse mais com ele: Daniel deveria continuar o trabalho que ela havia começado com aquelas crianças. Era um presente que ela lhe deixava. Ele não entendia como isso poderia ser um presente e de início rejeitou completamente a ideia. Mas, com o passar dos dias, a ausência dela foi se intensificando e ele percebeu que se fosse ao Hospital, como eles faziam todos os domingos, talvez a saudade não doesse tanto.
Agora que chegara ao seu destino, tinha por consolo apenas a lembrança do cheiro dela, quando caminhava ao seu lado pelos quartos. Pensou em desistir e voltar para casa. Parecia-lhe muito cedo voltar à rotina, uma rotina que era dela. Mas, antes de conseguir se virar, viu uma cabecinha espiar por uma das portas. Um garotinho careca parecia brincar de esconde-esconde, pois toda vez que Daniel olhava em sua direção, ele sumia e quando Daniel virava o olhar em outra direção, ele voltava a aparecer.
Daniel caminhou na direção do quarto do garoto, como se um fio invisível o puxasse naquela direção. Quando entrou no quarto, o menino estava deitado com o cobertor cobrindo seu corpo até acima do nariz e soltava risinhos divertidos. Daniel sentou-se na beirada da cama e sorriu para o menino que por fim, descobriu o rosto e sorriu abertamente para ele, um dos dentes da frente lhe faltando, mas deixando seu sorriso mais gracioso com isso. Num gesto surpreendente até para si mesmo, Daniel retirou a prótese dentária que usava e mostrou ao garoto que ele também era banguela. Ambos riram tão alto que a enfermeira veio à porta ver o que acontecia, enquanto eles tentavam controlar o riso.
Daniel sentiu seu peito se aquecer aos poucos, enquanto a tarde passava e ele se dedicava a arrancar cada vez mais risos daquele menino. Quando a enfermeira anunciou que o horário da visita havia terminado, Daniel sentiu seu interior se esfriar um pouco. O garoto impulsivamente abraçou Daniel, que demorou um pouco a retribuir por puro espanto, mas quando envolveu aquele pequeno em seus braços, entendeu qual era o presente a que Rosana havia citado em sua carta de despedida.
“Tio, eu te amo!”, disse o menino, mais uma vez surpreendendo Daniel, que do alto de seus setenta e cinco anos, percebeu que ainda tinha muito a aprender. Mas, ele estava satisfeito com a lição aprendida naquele dia, naquele Natal. Quando dedicamos nosso tempo para tornar o próximo feliz, aquela gota de alegria gerada retorna para nós em um mar que nos transborda e transforma, como só um verdadeiro milagre consegue realizar.

 

Feliz Natal a todos vocês que nos acompanham aqui, no Vigor Frágil!!!!!

Pensamentos Relacionamento

Nossa quebrada sintonia…

Há uns dias, eu me peguei cantando. Era hora do banho e no celular tocava minha playlist de Favoritas, como sempre faço em meu ritual banhístico. A melodia de uma canção se infiltrou em meus ouvidos, driblando o ruído da água que caía sobre mim e quando me dei conta, estava cantando alto, acompanhando os versos da música de olhos fechados. Continue Reading

Pensamentos Relacionamento

Do jeito que ela é

Ela olha no espelho e encara o receio no reflexo. Seus olhos não conseguem esconder o que tenta ocultar de si mesma. Ensaia um sorriso, mas os lábios insistem em um tremor que mais parece uma careta, denunciando-a. Fora isso, sua aparência é ótima. Os olhos miúdos estão enfeitados com uma sombra que realça a cor natural das íris castanhas com pontos dourados, os cílios longos e volumosos ficam charmosos durante as piscadelas, as maçãs do rosto estão bem marcadas com o blush que lhe dá uma aparência saudável. Nos lábios, o vermelho com efeito matte, deixa-os convidativos e ela tem certeza de que o homem que a espera à mesa apreciou o conjunto da obra.

Mas, considerando que o conheceu através de um aplicativo de paquera online, talvez ele ainda quisesse beijá-la, mesmo que não estivesse tão bem produzida. Afinal, o propósito da maioria das pessoas que fazem uso desses aplicativos é encontrar um atalho para a conquista de uma noite. Ao menos é assim que ela ainda vê essa situação, mesmo fazendo parte disso na situação presente. Mas, olhando francamente para dentro de si mesma, admite que aderiu “ao movimento” porque estava cansada.

Cansada de ficar sozinha em casa todo sábado à noite, enquanto a maioria das pessoas, inclusive as solteiras como ela, estão por aí curtindo, explorando, experimentando. Cansada de só conversar com pessoas do trabalho e sobre o trabalho. Cansada de emitir a mesma resposta vazia, quando a melhor amiga desde os onze anos de idade pergunta “quais as novidades?”. Cansada de se sentir tão deslocada.

Não que pense que há algo de errado em si própria. Isso não! Mesmo quando o cara diz que ela é sensacional, mas ainda assim escolhe não ficar com ela (o que convenhamos, se ele realmente pensasse isso, porque abriria mão dela???), ou quando outro diz que ela é “areia” demais para ele, fazendo-o se sentir inferior (de fato, ela é mesmo!). Ela só não sabe como se encaixar. E o esforço para “fazer parte” é exaustivo, fadigante e a consome mais do que está disposta realmente a oferecer.

Por baixo da sua figura de supermulher, existe um ser humano, que só quer ter uma conexão com outro ser humano. Ela só quer fazer parte do que faz outra pessoa feliz. Só quer ter certeza de que sua participação, ainda que pequena na rotina de alguém, tornou a vida dessa pessoa melhor.

Ela não deseja um romance louco de cinema. Só quer alguém que a ouça quando cantarola “I came home, Like a stone, And I fell heavy into your arms, These days of dust, Which we’ve known, Will blow away with this new sun” , mesmo que ele nunca tenha ouvido a banda Mumford & Sons. Ela não deseja grandes demonstrações públicas de afeto, só deseja o carinho presente em pequenos gestos diários como assistir com ela pela milionésima vez o último episódio de Friends. Ela não deseja alguém que na frente das pessoas ostenta uma visão politizada e liberal sobre a sociedade, mas que não se compadece quando ouve falar sobre maus tratos e miséria. Ela deseja encontrar alguém que respeite suas opiniões, não alguém que ri de sua ingenuidade por ainda querer uma ceia de Natal típica ou de sua falta de conhecimento sobre quem são os jogadores de futebol mais valiosos da atualidade.

Ela já quis em sua vida músicos, médicos, escritores… Hoje ela só quer alguém que a aceite do jeito que ela é.
Talvez seja o moço que a espera no restaurante, em uma mesa aconchegante, perto da janela de onde podem vislumbrar o que acontece nas ruas de São Paulo. Esse pensamento a faz sorrir de verdade e dando um último retoque na maquiagem e na esperança, ela retorna ao seu encontro.